quinta-feira, 23 de agosto de 2007

ela e o tempo

Ela acordou cedo de novo... Pediu que o relógio do celular voltasse meia hora para trás. O tempo de Bergson fez a meia hora virar 1 minuto, e ela teve que levantar do mesmo jeito (e ainda chegou 20 minutos atrasada na aula que, ironicamente, falava justamente sobre o tempo de Bergson).


Aquela semana tinha sido tão estranha... Ela lembra de ter chorado. Algumas lágrimas tiveram motivo (motivo que ela depois achou exagero dela), mas muitas se aproveitavam de desculpas pequenas para caírem sem razão. Ela não sabia o que o espírito dela tentava dizer, às vezes. Na maioria das vezes. Só sabia que não conseguia ir dormir sem abrir a janela e olhar para uma estrela. Uma estrela pequena, longínqua e de brilho distante. Brilhava menos que as outras, mas, por algum motivo inexplicável, sempre que a moça olhava para o céu, era aquela estrela pequena que lhe chamava a atenção, piscando de diversas cores. E mesmo quando o céu estava totalmente coberto de nuvens (como ontem), sem que nada pudesse aparecer, aquela estrela desvencilhava a névoa e se fazia única no céu, só visível para quem quisesse. E a moça queria, embora tivesse ficado um bom tempo se perguntando como isso era possível, já que estrelas mais fortes haviam sumido. Depois esquecia explicações. Admirava, antes de resolver se deitar.


Custava a dormir, mesmo quando tinha sono. O cheiro de incenso a embalava, e ela não percebia quando deixava de pensar mil coisas conscientes para começar a pensar mil coisas sem sentido, que era quando os sonhos chegavam. De uma coisa é certa: ela nunca pára de pensar mil coisas. Sonhos estranhos, sempre, mas que diziam algo importante. “Vou começar a dormir com folha e caneta ao lado”. E foi o que fez. Descobriu que não pode se deixar sensibilizar mais.


Depois da aula de manhã, sentiu que estava estranha. Não estava triste, mas também não se sentia feliz. Sentia-se observadora e um tanto quanto metafísica ao extremo. Olhou para o Sol e descobriu para que lado estava o norte (seria útil mais tarde). Foi até sua árvore preferida e colocou um buquê de rosas secas no pé desta. A árvore era importante, as rosas mais ainda. Então a moça achou que a árvore merecia rosas e que as rosas mereciam a árvore.


Comprou um brigadeiro gigantesco que vinha com um morango gigantesco em cima. Sentou-se num banquinho e tentou se concentrar no sabor. Sentiu-se melhor. “É incrível como a felicidade pode caber dentro de um brigadeiro!”. Ela tinha certeza que várias pessoas contestariam a utilidade dessa felicidade, pelo fato dela ser extremamente momentânea. “E que felicidade não é momentânea??”, perguntou-se a moça, “Felicidade permanente seria uma chatice!”. Várias pessoas a olhavam, porque ela tinha chocolate nos lábios e em partes do rosto. Isso a fez rir de si mesma e sentir-se uma criança.


De repente, teve vontade de escrever (nada anormal)! Limpou o rosto com água fria e dirigiu-se ao computador mais próximo. Enquanto escrevia, alguém a interrompeu. E a felicidade que ela sentiu foi maior do que a do brigadeiro. Não pelo fato de ter sido interrompida, e sim pelo “alguém”.


Ela teria um longo dia pela frente. Ler muito, escrever, ler um pouco mais.E quem sabe assistir a uma vela verde se queimando. O tempo de Bergson custaria a passar. Mas passaria...

2 comentários:

Uma outra Tatiane... disse...

Pooxa... parece que em cada texto eu conheço uma Fernanda Braite diferente... quantas serão elas?
Mas, de certo, todas são encantadoras, em todos os sentidos que a palavra pode ter.

Suas palavras sempre me enfeitiçam, trazendo sentimentos serenos e bons. Acho que é por isso que gosto tanto deles; talvez pq eles me fazem sorrir para a tela bobamente, me sentindo feliz por alguns instantes sem nem saber pq...

É sempre bom ler o que vc tem a dizer!

...Nessa disse...

"(...)por algum motivo inexplicável, sempre que a moça olhava para o céu, era aquela estrela pequena que lhe chamava a atenção, piscando de diversas cores"

Acho que a parte do incenso diz muito. Sabe a Fe? Ela surge como um incenso, meio aceso do nada. E não é daquele tipo enjoativo, forte. Não, é aquele que você percebe só depois de uns cinco minutos, quando o ambiente todo já se preencheu. E o cheiro toma conta do ambiente de tal maneira que você não consegue mais imaginá-lo sem esse incenso.
Admiração. É isso que eu sinto por vc, Fê. E pelo q vc escreve também. É encantador.

Te adooroo!
Beijos!!