quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Carta ao vento

Um senhor de seus oitenta anos caminhava lentamente pela praça, apoiado em uma bengala de madeira escura. Ventava muito e o vento trazia folhas secas, papéis de bala e coisas mais. Uma folha em especial se enroscou no pé do idoso, que se abaixou lentamente para pegá-la e jogar na lixeira mais próxima.
“Esses porcos que jogam papel na rua!”, pensou. De repente viu que tinha coisas escritas na folha. Parecia uma carta recentemente escrita.


“Querida Beatriz,

Joguei essa carta no vento, e não sei onde ela vai parar.
Estou escrevendo pra você, porque morro aos poucos de saudade. Como eu queria poder te ver! Por que você não aparece por aqui? Por que não larga o que quer que esteja fazendo, para poder vir visitar esse desesperado que só sabe chamar pelo seu nome?

Meus amigos tentam me convencer a te esquecer. Impossível. Eu te amo, Beatriz, eu sempre vou te amar. Não me interessa que você tenha me deixado, não me interessa que não atenda ao meu chamado. Eu te amo e isso não vai mudar.
Lembra de como nos conhecemos, Beatriz? Eu, apenas um cara calado e na minha, e você uma garota histérica pela chuva infernal que ensopava a todos que estavam no ponto de ônibus. Eu apenas te dei meu guarda-chuva, e você agradeceu me fornecendo uma conversa agradável, naquele dia frio. E nunca mais você devolveu o guarda-chuva, e eu nunca mais consegui ficar sem conversar com você. Lembra do primeiro encontro, do primeiro beijo? Até hoje eu não sei qual era a história daquela peça de teatro. Só fiquei prestando atenção nas suas mãos pousadas no encosto de braço da poltrona.
Depois disso, passamos por momentos mágicos juntos. Ainda não entendi porque você resolveu ir embora. Agora, fico aqui querendo o seu beijo. Você não tem pena de mim, Beatriz?
Por que aquele carro tinha que fazer aquela curva maldita, naquele exato instante? Quando eu soube que você havia se machucado... Beatriz, eu quase enlouqueci! No outro dia já me chamaram para ir te visitar.
Você estava bonita. Como sempre. Colocaram muitas flores na sua cama. Eu sei que você deve ter detestado isso! Como você iria se mexer, com todas aquelas flores em volta? Não havia espaço pra nada! Tenho certeza que você estava imóvel daquele jeito justamente porque não queria amassar flor nenhuma. Tentei explicar para eles que você iria se zangar com aquilo, mas ninguém me escutou. Só sabiam me dar calmantes e mais calmantes.
E todas aquelas pessoas chorando! Meu Deus, que chatice! Não é a toa que você fingiu que estava dormindo. Fingiu muito bem, por sinal. Mas me assustei com a temperatura de suas mãos, que sempre foram tão quentes. Estavam geladas! Seu rosto também estava. Beijei seus lábios, para que você ao menos acordasse para dizer que me amava, mas você continuou dormindo.
O seu quarto e cama estavam bem iluminados, e eu gostei disso. Mas não deviam ter colocado velas. Aquelas velas e aquelas flores exalavam um cheiro de morte. Acho que foi por isso que eles resolveram te trocar de quarto. Mas que quarto horroroso queriam te colocar!! Era fundo, escuro e devia estar congelante! Fria do jeito que você estava, não podiam te colocar naquele buraco! Fiquei furiosíssimo. Deram-me mais calmantes.
Depois disso, nunca mais te vi. Você devia ter me procurado, Beatriz. Há dias que estou desesperado por um abraço. Nunca mais vou ver o seu sorriso? Seu sorriso ou qualquer outra daquelas expressões típicas que só você fazia? Seu cheiro ainda está no meu casaco. O que eu vou fazer quando ele sair, Beatriz? Onde eu consigo mais do seu cheiro?... O balançar de seus cabelos no vento, seu jeito de andar. Sua voz, seu olhar... Onde eles estão? Desapareceram no éter? Venha me ver, Beatriz! Venha e me leve para onde quer que você esteja, eu te imploro!
Ainda estão me dando comprimidos para me acalmar. Viu o que você fez? Tirou minha paz! A saudade está me matando.
Joguei essa carta no vento, e não sei onde ela vai parar. Mas, onde quer que ela pare, sei que você vai lê-la. Porque você está no vento, Beatriz. Posso te ouvir no vento. Você está nele, está na terra, na água. E, principalmente, você está em mim. Sempre.
Do seu Vítor.”

O senhor tinha lágrimas nos olhos, quando acabou de ler a carta. Deu um sorriso triste e deixou o vento levá-la, novamente. Tinha que voltar logo para casa. Sua esposa preparara uma sopa quentinha...

2 comentários:

...Nessa disse...

Fe... Lindo.
Se eu fosse o senhor de begalas, voltaria diferente. Porque o amor que ele tinha talvez fosse do mesmo tamanho ou até maior do que esse outro amor da carta - mas era diferente. Em doses homeopáticas. Não sei, não me arrisco a falar de amor.
O mais lindo foi que ele deixou a carta, pra alguém mais ler. E se vc quer saber, isso é uma prova de amor, não por alguém especificamente. Mas pela história, pelo que ele sentiu quando leu.

Linda história!

Beijos!! te adoooro!!

Uma outra Tatiane... disse...

Falei que viria comentar, num foi?

Pois é... esse amor parece inundar a história, o texto, o blog, o meu computador, essa sala fria de escritório onde me encontro. E me fez sorrir... Não aquele sorriso largo de quase risada, mas aquele sorriso de canto de boca, de encantamento, de esperança...

Seus textos sempre me fazem crer no mundo novamente. Sempre que me sinto só e deixo de acreditar nas coisas, os seus textos me batem na face de forma tão meiga que me convencem que o mundo só é cinza a quem que que ele assim seja...

Brigada, Fê! =)