quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Onda

Ia passar, ela sabia que ia. E gostaria de não duvidar da própria força, de ter certeza de tudo que era capaz, da mesma forma que algumas pessoas tinham certeza da força dela.
O futuro assusta. Ela queria, às vezes, ter a visão de como seria toda a sua vida, até o fim, para depois não se arrepender das coisas. Mas uma vida tão certinha seria divertida? Como queria saber se seria mais feliz se chutasse o balde e mudasse tudo. Mas, como saber? Não conseguia decidir direito que cor de roupa usaria.
Ela se olha no espelho e cada dia vê uma pessoa diferente. Umas bonitas, outras feias, umas gordas, outras magras, umas independentes, outras inseguras, umas inteligentes, outras burras... Qual delas decidiria qual caminho seguir? Ou ninguém decidiria nada? A vontade dela era sentar na areia e esperar para ver o que a maré a obrigava a fazer. Se a onda a faria nadar ou ir pra terra.
Algumas coisas a assombravam. Ela ficava o tempo todo imersa nas coisas e acontecimentos, tomando goladas de angústia pelo o que devia fazer, o que realmente faria e se essas duas coisas coincidiam. O mais racional seria esperar e ver como estava a maré... Mas ela nao queria, porque tinha medo que o mar a engolisse enquanto esperava. De que adiantaria todo o esforço para manter-se de pé, se a previsão era de maremoto?
Não seria. As coisas podem mudar, elas mudam. E faria mudar. Mudaria aquilo, nem que fosse a porretada. E, se não fosse possível, se o mar mesmo assim insistisse em carregá-la, que assim seja. Ela levantou a cabeça e decidiu o que faria. Lutaria. Se morreria na praia ou não, é uma outra história.
Quando ela levantou, o mar realmente a levou. Como se só estivesse esperando ela decidir que ir contra a onda era o mais correto. Como se o mar só estivesse querendo essa decisão, porque afogar alguém que luta contra a água é mais divertido.
E agora ela está em cima de um pedaço de madeira mal feito, furado e que fica balanceando pelas águas. Totalmente náufraga. O barco prometeu que voltaria para pegá-la, mas ela, no fundo, achava que o barco não tinha mais coragem de voltar. Ele queria, mas não se arriscaria a ir de novo para aquela parte do mar. Era perigosa, e ele tinha medo. E ela... ela não sabia até quando ficaria lá, boiando no mar. Até que alguém a achasse, ou melhor, que ela mesma achasse uma ilha. Ou não.

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