quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Serventia

Desde muito cedo ela aprendera que o coração só serve pra doer. Fisicamente ou não.

Ela estava estendida na cama, os braços ao lado do corpo. Ela olhava as frestas da janela e os raios que entravam por elas. Eles faziam riscos no ar escuro do quarto.

Tinha sido bonita, um dia. Agora, apesar da avançada idade não tão avançada assim, conservava nos olhos um brilho que lembrava muito aquele que ela tinha quando seu pai a jogava pra cima. Ela ainda lembrava o frio na barriga. Ele a virava de cabeça pra baixo, enquanto falava que eles deviam fugir com o circo pra fazer números de acrobatas. Ela ria até as costelas doerem. E a mãe encarava, com tédio, do sofá de onde tricotava um pulôver que a menina nunca tinha visto terminado.

De volta ao presente, ela abriu o guarda-roupa bagunçado e puxou um pulôver terminado. Não interessava qual era o tempo que fazia. Tinha frio sempre.

Fez um café sem açúcar e comeu um pão francês com manteiga. Lembrou da avó e da pele de suas mãos, que pareciam de papel. Lembrou de como a avó molhava o pão no café, numa época em que até mesmo a sua própria memória era em preto e branco. Pão molhado no café. Era nojento. Mas ainda assim repetiu o gesto e provou. Continuava sendo nojento.

Desde cedo ela aprendera que o coração serve pra doer. No meio da sala ainda tinha um urso de pelúcia encardido. Presente do primeiro namorado. E aquele urso doía, doía a todo instante que ela o olhava, lá, no meio da mesa da sala. Ele tinha prometido ou jurado que a amava?

Mas foi embora pra cidade, quando pôde. Soube pelas línguas dos outros que ele tinha casado. Essas línguas nunca tinham cabeça: eram vozes que chegavam até ela. Podia ser da amiga, da amiga da amiga, do homem que afiava as facas, do homem que afiava as facas pro homem que afiava suas facas. Mas elas vinham. E ela mantinha o urso no meio da sala justamente pra doer. Porque ela aprendera que o coração serve pra isso. E era bom quando doía, pois mostrava que ele ainda funcionava.

Porque ele podia parar de funcionar. Não podia? Tinha acontecido com seu pai, antes mesmo que ela pudesse cogitar em fugir com ele pro circo pra fazer números de acrobatas. E com sua mãe, antes mesmo que ela tivesse terminado o pulôver. E com a avó, antes que o pão estivesse suficientemente encharcado de café. E o coração dela doía ao pensar em cada um deles. Talvez mais do que doía o urso no meio da sala.

Desde sempre ela aprendera que o coração só serve pra doer. E era tão normal, que se ele parasse de doer, seria estranho. Como um estômago que parasse de digerir a comida, ou um fígado que não filtrasse mais o sangue.

Voltando ao quarto, ela olhou os riscos no ar escuro. E decidiu que abriria as janelas.

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