segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Sobre amor e chiclete

O Doutor organizou alguns papéis na mesa. Pegou a ficha.

- José Pereira.

Um homem cabisbaixo, com uma certa raiva timidamente expressa pela sobrancelha franzida, entrou e se sentou na frente do médico. Meio calvo, magro, sem graça. O tipo que não gosta de ir ao médico. Colocou um envelope branco na mesa.

- Seu José – começou o Doutor – Qual era mesmo o seu problema?

- Comida, Dotô. – explicou o homem – Num consigo mais comê. Primero que num tenho fome. Mas a gente come, né? Tem que comê. Mas daí é só começá a comê que eu já fico cheio e enjoado.

O Doutor pegou o envelope e olhou os exames. Espremeu os olhos.

- Mas é lógico que não cabe mais comida no seu estômago, Seu José. Ele está cheio.

- Cheio? Mais eu num como nada tem dias, Dotô!

Encarou o paciente. Com um olhar que deveria representar o quão grave seria o que ele iria lhe dizer.

- Seu estômago está cheio de amor indigesto, Seu José.

O homem ficou mudo, estático, enquanto o Doutor pegava papéis de receita e começava a escrever. O “frap frap” da caneta no papel foi o único som por alguns segundos.

- O Senhor tem engolido seus sentimentos ultimamente, Seu José? – perguntou, sem tirar os olhos do papel.

- É. Tem que engolir, né? – respondeu o homem, passivo - Se eu não engolir, vô fazer o que cum eles?

- Isso faz mal, Seu José. O estômago não foi feito pra digerir esse tipo de coisa.

Frap, frap, frap.

- Tome, aqui a receita. O Senhor vai tomar esse comprimido de 8 em 8 horas, pra limpar o estômago. Vai ficar vomitando amor por uns 3 dias.

O Doutor apertou a mão do homem e pediu que ele chamasse o próximo paciente. Seu José saiu do consultório se perguntando onde ele deveria vomitar amor. Em toda sua vida, quando passava mal, vomitara na privada do banheiro. Mas não parecia ser o lugar certo pra se vomitar, dessa vez.

Passado um tempo, uma mulher entrou. Magrela e franzina. Andava aos saltos. Tinha olhos grandes, espertos e rápidos. Cabelo curto virado nas pontas. Inseguros.

- Ainda com insuficiência cardíaca, Dona Sônia? Trouxe as radiografias que te pedi? – perguntou o médico.

- Estão aqui, Doutor. – ela estendeu os exames enquanto se sentava – O primeiro exame cardíaco que fiz na vida.

O médico abriu e deu um suspiro.

- Chiclete.

- O que o senhor disse? – perguntou ela, com a voz de doninha.

- Seu coração está lotado de chiclete. Tem alguma idéia de como tanto chiclete foi parar no músculo cardíaco?

Ela piscou os grandes olhos de lêmure enquanto seus lábios finos tremiam, de maneira culpada.

- É..-começou, brincando com os próprios pés- O senhor se lembra que meu coração foi totalmente quebrado, né, Doutor? Foi uma emergência. Só tinha uns cacos, eu precisava colar com alguma coisa.

- Daí a Senhora colou com chiclete. – não era uma pergunta.

O Doutor estava inconformado. Normal, já vira de tudo nessa vida.

Ela deu um risinho nervoso, enquanto ele a encarava.

- Vou explicar pra senhora, Dona Sônia.

Ele pegou um protótipo de coração do lado da mesa. Era cortado ao meio, cor de rosa, com veias amarelas, artérias vermelhas e válvulas azuis.

– Ta vendo esses músculos aqui? – apontou para as fibras de gesso do protótipo- Eles não podem ser colados com chiclete. Na hora até funciona, mas a longo prazo começa a descolar tudo. Sem falar que o coração fica borrachudo com o chiclete seco, e tem mais dificuldade pra bater por alguém, depois. E se ele for quebrado mais uma vez, esses cacos vão virar areia. Daí a senhora não vai conseguir colar nem com cliclete, nem com Super Bonder, nem com mais nada, Dona Sônia.

Ela deu um ganido de preocupação.

- Parece grave. E agora, Doutor?

- Vamos ter de fazer uma cirurgia pra tirar esse chiclete todo.

Os olhos de lêmure voltaram a piscar rapidamente. O problema não era a cirurgia, lógico. O problema era ficar sem o chiclete.

- Mas... ele vai voltar a ser quebrado e cheio de cacos! O que vamos fazer?

O médico deu de ombros.

- É uma pena que o símbolo seja o coração. Se fosse o fígado, ele se concertava sozinho.

Um comentário:

onboard disse...

http://go-avante.blogspot.com/