domingo, 2 de janeiro de 2011

Displicentemente viva

Ela estava entediada, aborrecida. Sentada no seu quarto, tamborilando os dedos.

Foi quando um vento fortíssimo abriu a janela. E ela ouviu coisas voando. E portas batendo. Um temporal dos mais fortes já vistos começou a querer derrubar o telhado. Ela riu e percebeu.

Os muros altos não deixariam ninguém ver. E ela pouco se importava, na verdade. O que importava era reverenciar a tempestade. Os trovões que gritavam, o vento que batia, a água escorrendo, tudo se comunicando com ela.

Arrancou a roupa, que deixou na cozinha mesmo. Saiu no quintal. E dançou. Dançou nua debaixo da chuva, daquele temporal que ia lavando cada centímetro de seu corpo jovem. Não existia mais ninguém. Só ela, a chuva e o vento. Dançou, rodou, girou, riu. A mesma chuva estava caindo em outros lugares. Nas curvas do vale. Nas curvas das montanhas, da terra, dos rios. Ia cair nas flores, nos alimentos que ela comeria, ia servir de bebida aos animais, às plantas. Seus irmãos. Ela achou uma folha no chão.

Sentia a água. Cada pingo caído em sua pele era como uma carícia nova, ia escorrendo pelo corpo, passando por outras curvas. Curvas mais conhecidas. O vale entre os seios, a cintura fina, a dobra da perna, o calcanhar. E escorria para o chão, deixando o êxtase. Um êxtase que nada tinha a ver com malícia. Só tinha a ver com amor. O amor à chuva que trazia vida.

Estendeu as mãos aos céus. Três gotas brincaram com o “m” de sua palma. Foram as últimas daquele dia.

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