terça-feira, 24 de maio de 2011

Beijada

Sentada na estação, esperando um trem lerdo que insistia em ajudar a estragar o dia. Dia este, aliás, ensolarado e bonito, daquele jeito irônico que só os dias bonitos conseguem ter, quando na verdade o céu deveria estar negro e soltando raios nos transeuntes, pra combinar com meu estado de espírito.


"Eu sinto muito. Não vou poder me dedicar a vocês tanto quanto eu gostaria", era o que eu havia dito naquela manhã.


Afundava o livro na cara, pra esquecer o dia bonito. De repente, um movimento perto do meu rosto me assustou. Um flipar de asas sensíveis batia bem na frente do meu nariz.


Era uma borboleta. Voou na frente do meu rosto por uns 3 segundos, afastando e aproximando, no que eu senti a sensação de que ela iria me beijar. Pra logo depois pousar exatamente no meu dedo indicador, na minha mão direita (que só agora eu via que estava apoiada no encosto da cadeira com a palma pra cima e os dedos dobrados delicadamente, como quando as imagens de santos parecem querer receber alguma coisa).


Levantei a mão para olhá-la de perto. Ela pousara virada para mim, e levantava e abaixava as asas bem devagar, numa especie de comunicação. Virou no proprio eixo, caminhou pelo meu dedo, sempre mexendo as asas para que eu visse cada detalhe de seu fundo negro coberto de manchas amarelas, cada uma com um formato diferente.


Por quanto tempo durou a nossa conversa? Não sei dizer. Pareceram horas. Mas era tão especial que a sensação era de segundos. Ou será que foram segundos que, de tão especiais, pareceram horas?


Por fim, vi uma quase microscópia língua de borboleta (daquelas que saem desenrolando) encostar no meu dedo, para logo depois ela levantar vôo e ir embora quase em linha reta de onde eu estava, até desaparecer.


Isso sim, foi um beijo.


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