domingo, 22 de maio de 2011

Pirexia

Era fato: as paredes do quarto estavam se mexendo sozinhas. E não teria sido pouco dizer que Ana desesperou como nunca havia desesperado. Afinal, aquilo só podia ser obra de algum tipo de manifestação demoníaca. As paredes começaram a se fechar em torno dela, bem apertadas. E antes dela começar a berrar com todas as forças, elas já se abriam outra vez. Ondulavam, tremiam. Pareciam brincar e gostar de se mexerem, já que nunca na existência de uma parede era possível dançar assim. “E por isso elas estão aproveitando tanto a situação!”, pensou Ana.

Não era a primeira vez que coisas estranhas aconteciam. Quando o ar do quarto começou a adquirir a cor vermelho-licorado e virou um forno, Ana sabia que tinha que começar a rezar. Era o forno frio, de novo. O ar estava quente, ela sentia o ar quente. Sua pele, as coisas, tudo em volta era quente. Mas estava frio. Todos tremiam, estava frio.

Sua mãe entrou no quarto e começou a rezar com ela. Sua irmã Sara também. Todos da casa rezavam pra ver se aquela manifestação passava. Às vezes sua mãe pedia que elas rezassem embaixo d’água. Ana detestava aquilo. Rezar enquanto tomava banho de água fria! Que ideia! Era a pior tortura do mundo, tomar banho frio com a temperatura que estava fazendo. Devia estar abaixo de zero.

Era penitência. Quanto mais penosa era a reza, mais funcionava. Ana gritava e reclamava toda vez que eles cismavam em fazer a “reza molhada”, mas tinha que admitir que funcionava. De todas as vezes que as manifestações haviam passado, foi por causa da reza molhada. Mas era frio... Tão frio...

Ela não agüentava mais. Por que aquilo acontecia logo no seu quarto? Logo ela, uma moça direita, de família, prendada. As coisas pioravam de noite. Durante o dia, tinha vezes que tudo parava e voltava ao normal. Mas assim que a noite caía, as manifestações voltavam como se estivessem ficado o dia todo a espreita, esperando o último e ínfimo raio de sol ir embora, como a raposa esgueirando entre as moitas e esperando o fazendeiro sair pra poder roubar a galinha.

Galinhas... Alguém precisava dar milho às galinhas! Se Ana pelo menos pudesse sair daquele quarto maldito... Mas o quarto era dela e era ela quem precisava se livrar daquilo.

Ouviu alguém na sala dizendo que Daniel vinha esta tarde. Daniel! Seu noivo. Ela amava Daniel. Quanto tempo ela tinha pra se arrumar, antes que ele chegasse? Seu vestido estava passado? Onde a irmã havia deixado a fita de cetim nova? Ana gritou por Sara e pela fita. Mas a maldição de seu quarto fez com que as horas virassem minutos e, quando Ana percebeu, já era noite. Às vezes acontecia ao contrário: os minutos viravam horas e ela ficava presa no tempo. Teve uma vez que ela ficou uma semana inteira no dia 03 de Abril. Teria ficado mais um mês, se não tivesse rezado debaixo da água fria até bater os queixos.

Mas que inferno! Já era noite? Daniel tinha vindo, afinal? Onde estava a bendita fita de cetim? Como era de se esperar, tudo piorou com a noite. As manifestações voltaram, como a raposa espreitando. O quarto já estava vermelho quando sua prima Gabriela entrou para dormir. Gabriela. Sempre tão chata e asquerosa!

No frio gélido e quase insuportável da madrugada, Ana acordou. Tinha dormido? Olhou para o lado. Só viu a prima, que dormia. Foi então que a magia do quarto fez uma das piores coisas que já havia feito: fez Ana trocar de corpo com Gabriela. Quando Ana deu por isso, desesperou. Mais ainda. Paredes fechando, ar ficando vermelho, frio gelado, calor úmido. Aquilo não era nada perto de se ver dentro de um corpo que não era o seu! Estava gorda, feia! Onde estava seu corpo pequeno e magro, tão delicado e sempre elogiado pelas amigas e pretendentes? Onde estavam seus cabelos castanhos claros tão longos e ondulados, sempre lavados com água de coco aos domingos?

Não! Estava gorda! Agora tinha uma pele de cor suja por marcas de espinha, um cabelo crespo seco. Era alta demais, grossa demais. E má! Não era mais doce e gentil. Era má e ambiciosa. Era Gabriela!

Chorou e gemeu por horas. O que iria fazer? Daniel vinha visitá-la no dia seguinte! Ou seria ontem? Hoje seria ontem? Daniel jamais continuaria gostando dela quando a visse tão feia daquele jeito. E sem a fita de cetim! Podia esquecer seu noivado. Ele deixaria de amá-la, tinha certeza.

E sabe o que era mais estranho? Ela era Gabriela, mas ela ainda podia ver Gabriela dormindo na cama ao lado. Isso significava que ela estava fora e dentro de seu corpo, ao mesmo tempo. Ou melhor, de seu novo corpo, seu novo corpo horrendo e gordo. E onde estava seu corpo antigo? O que a alma da Gabriela tinha feito com ele, onde o havia levado? Se aquela invejosa estivesse usando seu corpo antigo pra fingir ser ela e roubar Daniel... E roubar as contas coloridas, os vestidos e a fita de cetim! Roubar as raposas, como uma galinha que espera o fazendeiro acabar com a luz do sol!

Não queria ver Daniel, não queria! Tinha aparecido flores brancas em volta de sua cama... Aquele cheiro horrível! Brotaram flores em volta da cama, pra ela achar que estava morta! Não estava morta! Não queria que Daniel a visse gorda e morta!

De repente, o caos. Tinha um demônio dentro do quarto. Um homem horrível, que usava preto! Parecia padre. Era um demônio padre!As paredes estavam se mexendo. O ar estava de cor vermelho-licorado. Tudo estava quente e fazia um frio insuportável, e ela começou a tremer, tremer, tremer. E ela era Gabriela. Tinha que rezar. Ave Maria, cheia de graça, o senhor é convosco... Afinal de contas, o que significava a frase “O senhor é convosco”?? O senhor é o quê convosco? ...Tinha que ter concentração. Difícil. As paredes estavam ainda mais próximas, e agora que ela era gorda, ficava mais fácil de ser esmagada. Ave Maria... Ave. A galinha é uma ave. Será que a essa hora o fazendeiro já tinha conseguido roubar o raio de sol da galinha, depois que a raposa tinha ido embora? Ave Maria, cheia... Como era mesmo que se rezava? Ela tinha que terminar a reza, ela tinha que terminar! Meu Deus, como era mesmo que se rezava?

Sua mãe estava no quarto. Sara trazia mais flores. Ela não queria flores, ela queria a fita! Sua mãe, rezando com ela, achou que era hora de apelar pra reza molhada. Arrastou Ana até o banheiro e entrou com ela na tina. Foi engraçado como a mãe a arrastou com facilidade, se ela não era mais magra. Ou era? Tinha voltado a ser ela mesma? No caminho para a banheira, viu de relance o rosto de Daniel. Ele estava lá! Ela tinha que ser ela, porque ele estava lá! Ela tinha que ser ela, porque se não fosse, ele ia deixar de gostar dela. Onde estava a fita? A raposa havia roubado!

Frio. A água da banheira era gelada, tão gelada... Ana tremia mais do que nunca. Tremia tanto que podia sentir seu corpo fazendo ondas dentro da tina de água congelante do banheiro. As ondas transbordavam. Ela estava em alto-mar. No escuro. Tão gelado, tão gelado. E se tivesse bichos nadando embaixo dela? Bichos com dentes... Tinha! Ela tinha certeza que tinha bichos enormes nadando embaixo dela! Eram cegos, porque viviam no escuro. Cegos e surdos, mas podiam sentir seu cheiro! Ela gritou. Ela não queria mais sentir frio.

Estava de volta na sua cama, e ainda estava frio. E o ar ainda estava vermelho. As paredes não fechavam mais. Só ondulavam, como a água da banheira quando o corpo dela se debatia. Ela ainda se debatia? Sim, mas não tinha água. Tinha panos. Lençóis. E pedaços de pano úmido pelo corpo. Nas pernas, têmporas! Alguém estava colocando panos gelados nela! Por que, por que queriam que ela continuasse a sentir tanto frio? Por que a odiavam tanto?

Às vezes tudo ficava vermelho escuro, e tudo rodava de baixo pra cima, e de cima para baixo. Ouvia sua irmã chorando, longe. Por que ela estava chorando? Pelo amor de Deus, Sara, onde está a raposa de cetim? Sua mãe rezava. A voz de sua mãe rezava, ela ainda sabia rezar. Longe. Daniel.


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Gabriela saiu do quarto arrastando o corpanzil, levando alguns panos embebidos em álcool. Entrou na cozinha para buscar outros. Na sala mal iluminada pelos lampiões amarelos, num dos pequenos sofás, havia um moço sentado. A cabeça quase entre as pernas, desconsolado. Tinha olhos cinzas, bonitos, um bigode fino. O chapéu quase pendia de uma das mãos, junto com um buquê de lírios brancos. A outra mão era passada pela cabeça de um em um minuto. Estava lá havia horas. Ficaria mais, se precisasse.

A porta do quarto abriu num baque que fez o rapaz saltar do sofá. Deu lugar a uma senhora que saíra de lá, aos prantos. Dona Silvéria aceitou a gentileza e se deixou cair no sofá, entre soluços. A manga longa, bordada em renda e presa até o punho, estava ensopada em lágrimas.

- Como ela está? – quis saber Daniel, ansioso, assim que Silvéria levantou o olhar e se mostrou apta a conversar. – Como está Ana?

A senhora fez um “não” com a cabeça, exausta,

- Não conseguimos fazer baixar! – caiu no choro novamente – Não há meios de fazer baixar!

A velha senhora voltou a soluçar. Daniel olhou para o buquê. Afagou de leve o terceiro lírio, que já murchava. Pela pequena janela retangular da sala, feita de ferro forjado em flores, entrava uma luz branca de lua minguante. Fraca, pálida, quase doentia.

Na noite seguinte, fez-se lua nova.

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