quarta-feira, 22 de junho de 2011

Cinderela

Eu acordei porque meu despertador tocou, e não porque passarinhos e ratinhos vieram me acordar cantando. Aliás, cá entre nós: nada contra ratos, já que fomos nós os culpados por eles serem sujos e superpopulosos. Tem uns que são até fofinhos. Mas se eu acordasse com ratos pulando na minha cama e guinchando canções, eu ficaria, no mínimo, bem assustada.

Não arrumei a casa, mas lavei a louça acumulada de ontem. Não porque sou bondosa, e sim porque se minha mãe chegasse em casa e visse a louça por lavar, ela iria virar mesmo uma madrasta. Uma madrasta perigosa, bravejando sobre como eu não participo da organização da casa. E com motivo.

Nenhuma fada-madrinha veio me ajudar a me vestir. Teria sido muito bom. Infelizmente, eu tive que, sozinha, achar alguma coisa vestível naquele guarda-roupas caótico. E me lembrei, de novo, que se eu fosse uma moça mais prendada, ele não estaria tão desarrumado assim. De novo me veio na mente uma mãe-madrasta criticando minha falta de organização com roupas. Com motivo, novamente.

Mas coloquei um sapatinho bem pequeno. Gostava dele, e estava fácil de achar. Deixava meu pé ainda menor, mas isso eu só reparei quando já estava andando na rua, vendo que meus pés quase não apareciam por baixo das barras da calça jeans.
Estava correndo. Tinha a esperança vaga de que se eu chegasse logo na Universidade, eu poderia fazer tudo que eu tinha que fazer e sair de lá antes da meia-noite. Antes da meia-noite!! Não que eu virasse abóbora, depois disso. Mas seria muito bom dormir mais cedo.

E foi correndo na escadaria da Catedral da Sé, pra cortar caminho pro ponto de ônibus, que aconteceu. Não era a escadaria de um castelo, mas a Catedral da Sé é o que mais chega perto de um castelo nessa cidade, não é? Eu corri, como pobre moça apressada. Quando cheguei ao fim, vi que meu sapatinho do pé direito havia ficado no segundo degrau.
Não foi uma torção de pé, nem nada esdrúxulo. Foi com classe. Ele simplesmente ficará lá, no meio do caminho.

A correria era tanta que eu, por alguns segundos, fiquei mesmo com ar de princesa, pensando se deveria continuar correndo e simplesmente deixar o sapato lá. Esses segundos foram suficientes pra eu pensar: o que aconteceria se um príncipe pegasse meu sapato e saísse pela cidade tentando encontrar a dona que calçasse aquele pé, para pedi-la em casamento? Ia encontrar pelo menos umas 300 noivas!! Afinal, numa cidade como a nossa, eu não era nem de longe a única a calçar aquele número. E, se por algum milagre ele me encontrasse, a única coisa que teria de mim seria um "Nossa, moço, obrigada por achar meu sapato!". Tá bom que eu iria me casar com um lunático do qual eu só conheço a mania estranha de ficar indo de porta em porta calçando pés de mulheres! Maluco, no mínimo.

Como não apareceu nenhum príncipe, eu tive que voltar a subir as escadarias e pegar meu sapato de volta. A carruagem 7411- Cidade Universitária havia acabado de passar. Eu podia esquecer a possibilidade de sair do baile antes do relógio bater doze badaladas. Inferno!

Tudo bem. Hoje, Cinderela. Amanhã, quem sabe, sou um pouco Bela Adormecida e me deixam dormir por 100 anos. E se algum infeliz me acordar com um beijo antes do meio-dia, juro que viro dragão.

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