segunda-feira, 11 de julho de 2011

O caderno

O que diabos eu estava procurando naquela caixa empoeirada? Não lembro. Esqueci de tudo quando achei um caderno roxo com desenhos dos Tiny Toons.
Com cadeado. Lógico. Era uma época que diários tinham cadeados e era seguro deixá-los em cima da escrivaninha. Não tão seguro assim, na verdade. Consegui abrir em um segundo com um grampo de cabelo.

A primeira página estava escrito "Diário de Fernanda Braite" em letras prateadas e ornamentadas de um jeito medieval. Não combinava nada com a capa, mas tudo bem. Na segunda página, descobri que aquele era um diário de uma menina de 12 anos.

O que se espera de um diário desses? Páginas sobre cores, roupas, filmes, amigos, paqueras, coisinhas de 12 anos... Não. Não só isso, pelo menos. O que eu fui percebendo era uma garota alegre, mas de um jeito bem peculiar. Citava as meninas da escola com análises psicológicas profundas, sem entender direito o comportamento de nenhuma das colegas. Ficava muito brava quando a mãe e a irmã brigavam enquanto ela estava tentando ler. E super empolgada com as invenções do pai, como o "boné do apagão" ( época do "apagão", meses em que São Paulo estava com um sério problema nas usinas hidrelétricas e a cidade ficava grande parte do dia no escuro. O pai da menina chegou em casa com um boné que tinha uma lanterninha na aba, à pilhas, estilo aqueles capacetes de mineradores).

Gostava tanto de animais e plantas que um dia as meninas fizeram coro em volta dela pra chamá-la de bruxa. Elas gritavam, e tudo parecia vagamente com o que hoje em dia se chama de bullying. Mas a menina dona do diário, apesar da vontade de chorar, olhou aquelas garotas gritando e pensou: "Bruxa... é. Talvez". E começou a pesquisar livros sobre o assunto. Acabou descobrindo que as colegas estavam certas.

De repente, o diário parava... Fiquei curiosa. Eu sabia o que acontecia, mas fiquei curiosa.
Uma folha em branco, e depois um pulo de datas de 1 ano e meio. Mais pulos de datas. E o diário de todo dia virou um caderno onde a menina escrevia como estava a vida dela, com intervalos de 2 ou 3 anos. Era isso. Um caderno que a garota encontrava, de vez em quando, por acaso, nas caixas empoeiradas da sua casa. E depois se esquecia dele, para depois voltar a encontrá-lo. O que tinha la? Alegria. Morte. Amores. Dor. Mais alegria. E análises.

A vida dela virou 360 graus, 720 graus, 1080 graus, como ela costuma dizer.

"As vezes bate uma vontade de querer ser outra pessoa. Não, não estou deprimida. Eu me amo. Só que, como todo mundo sabe, amar é difícil pois a gente espera coisas da outra pessoa que as vezes ela não faz. Levando em consideração que essa pessoa sou eu, tento não me decepcionar."

Uma das frases da menina, já com 13 anos.
Não posso falar por ela. Mas posso falar por uma de 23, que vai fazer o possível pra não decepcioná-la.


2 comentários:

Made of Steel disse...

Muito esperta essa garotinha! Quando ela crescer tenho certeza de que será uma dessas raras pessoas que tem beleza e inteligência equivalentes! =)

Salem Zamenaph disse...

Ela terá sorte se achar um índio igualmente bonito e inteligente. XD Je t'embrasse!