segunda-feira, 15 de agosto de 2011

O domingo chegou. Ele chega todo ano, aquele domingo específico. Assim como outras tantas datas que me fazem lembrar. E eu tento levar isso da melhor forma. Eu tento até fazer piada, pois ser humorado quando o assunto é triste é bem do nosso feitio. Faz doer menos? Às vezes. Nem sempre.

Lembro de termos cavalgado juntos, no último dia. Estávamos no lugar que nós dois mais amávamos no mundo. O sol estava se pondo, tudo estava de uma cor dourada. Você cavalgava na minha frente, e eu corria com meu cavalo pra te alcançar, e aquele vento delicioso mexia seus cabelos curtos e escuros.

Os mesmos cabelos curtos e escuros que eu lembro de ter olhado a água mexer, muitos anos antes da cavalgada. Eu não sabia nadar, mas amava a água, então você me colocava nas suas costas e nadava comigo montada ali. A mamãe gritava, mas eu não sabia por quê. Afinal, eu me sentia totalmente segura ali, enquanto você mergulhava e eu via a água fazer seus cabelos se mexerem. Era uma época que eu era pequena o suficiente pra não me lembrar quantos anos tinha. E pequena o suficiente pra caber nas suas costas...

"Céus
Conheci os céus
Pelos olhos seus
Véu de contemplação"

Mas agora eu estava grande. Agora eu era uma menina boba de 13 anos, que como toda garota, criticava o pai e fazia caretas sarcásticas por coisas sem importância. E eu menti pra você. Eu menti quando disse que, de manhã, tinha conseguido abrir a porteira sem descer do cavalo. Acho que você desconfiou, porque me perguntou várias vezes se eu tinha mesmo conseguido. Eu menti porque queria que você se orgulhasse de mim. Como uma menina de 13 anos poderia fazer o pai se sentir orgulhoso, se não fosse abrindo a porteira sem descer do cavalo?
Todas essas pequenas coisas não tinham importância, porque naquele dia nós tínhamos cantado a música do lobisomem como não fazíamos há um bom tempo. E agora cavalgávamos. E eu desejei poder ter outros momentos como aquele com você. Lógico que eu teria! Afinal, eu era uma adolescente e meu pai era forte e jovem. Ele me veria entrar na faculdade, me acompanharia no meu casamento. Ele cantaria a música do lobisomem para os meus filhos, e eles iam cair na gargalhada, sentados no colo dele, como eu fiz um dia.

Aquela não era hora de pensar nisso. Era hora de correr, de pressionar mais a barriga do cavalo, porque eu queria te alcançar.

O dia seguinte veio, e você foi embora. Pra um lugar onde não era possível te alcançar.


Antes de você perder a consciência, eu lembro de ter te visto sentir dor. Muitos anos mais tarde, em conversas desimportantes sobre curiosidades, eu escutei mais de uma vez que a dor do ataque cardíaco é uma das mais fortes do mundo, perdendo apenas para a dor do parto e a das pedras nos rins. Provavelmente a dor que eu senti quando escutava aquilo era forte o suficiente para também entrar nesse ranking. Mas, naquele dia, eu não sabia que sentiria essa dor.

Tudo foi tão rápido... A porta estava entreaberta, e eu fui a única que viu. Os choques. E pude sentir que, no segundo seguinte, você não estava mais lá. Dizem que quando vemos coisas que doem muito, o cérebro tenta apagar essas imagens e sensações da nossa memória. Agradeço ao cérebro pelo serviço prestado. Acho que doeria ainda mais se eu me lembrasse das cores, dos cheiros, ou da ordem cronológica das coisas. Não. Só me lembro de pedaços. E do médico me levando pra uma sala para contar o que eu tinha acabado de ver com meus próprios olhos. Eu não chorei. Só fiz uma pergunta: Não dá pra voltar atrás? O médico fez uma cara que misturava a pena com a confusão. Que tipo de pergunta era aquela? Ok, era normal as pessoas perguntarem se não havia mais nada a ser feito para salvar a pessoa que morrera. Mas a pergunta não fora essa. A pergunta estava bem formulada: "Não dá pra voltar atrás?"
Na hora nem eu sabia, mas aquela pergunta sem sentido, que saíra da minha boca, não fora dirigida ao médico. Eu estava perguntando pra alguém, nem sei quem. Meu pai estava morto, e todo meu conceito de realidade estava bagunçado. Se a realidade podia ser bagunçada daquele jeito, ela bem que poderia ser bagunçada a ponto de eu poder, por passe de mágica, voltar no tempo. Não é?
Se eu não tivesse me despedido dos animais e atrasado as coisas... Há duas hora atrás, estávamos todos nos arrumando, porque tínhamos que sair do sítio e voltar pra casa. O sol estava forte, e fazia um calor mormacento. Eu tinha ouvido falar (minha mãe dissera?) que meu pai estava com dor no braço. Normal, ele tinha feito tanto esforço ajudando a construir a cerca, ontem... Falavam sobre passar no hospital da cidadezinha, antes de seguir viagem. Eu não sabia se era mesmo necessário. Era só uma dor muscular, oras!
Eu tinha que me despedir do sítio, pois ficaria um tempão sem voltar pra lá, e era meu lugar preferido. E fiz isso. Eu estava lá, me despedindo dos cavalos, dos porcos, das árvores e dos filhotes de passarinho, porque eu ficaria o ano inteiro sem vê-los. E você estava sentado perto da soleira, e eu não sabia que já sentia dor. Dentre mais ou menos uma hora, você iria embora para sempre. Não era por um ano. Para sempre. E eu nem ouvia o que você dizia. E eu me despedindo de porcos. De porcos!!

Então, era isso. Eu só tinha que voltar no tempo, apenas uma hora atrás, e agilizar tudo. Mandar os porcos pro inferno, apressar todo mundo, pra que arrumassem tudo e chegássemos no hospital rápido, e descobríssemos que a “dorzinha muscular” era na verdade um começo de ataque cardíaco. Daí ele tomaria remédio, e seguiríamos viagem. Ele não teria o ataque bem na frente da porta do hospital. Ele não morreria. Daria tempo.
Era isso, eu tinha que voltar uma hora atrás. Ou voltar um dia antes, pra que eu acelerasse o cavalo e pudesse alcançá-lo. Ou então voltar pra uma dimensão em que eu pudesse arrancar meu coração e fazê-lo bater no peito de outra pessoa. Qualquer coisa.

"Sim. Quis sair de mim.
Esquecer quem sou
E respirar por ti.
E assim, transpor as leis mesquinhas dos mortais"

Mas o médico me disse que não, que não dava pra voltar atrás. E assim eu descobri que a realidade só é bagunçada pra nos fazer sentir dor, e nunca pra nos ajudar a solucionar as coisas.


Os dias seguintes se passariam assim, fora do ar. E o calor mormacento caiu do céu em forma de tempestade turbulenta. Tudo é uma lembrança nebulosa de caos. Quando as coisas começaram a voltar a fazer sentido, eu me vi na posse de 3 coisas: lembrança, tristeza e uma capinha de celular. Tinham aberto o guarda-roupa e sumido com tudo, mas eu fiquei com a capinha de celular. Era feita de couro e estava impregnada com seu cheiro. Uma capinha masculina, de couro grosseiro, velha, já rasgando. Fiquei um tempo com ela. Eu me lembro que mais de uma pessoa me criticou por usá-la. "Que capinha feia para o celular de uma mocinha!", elas diziam.
Eu só concordava, sem falar nada. Como eu ia tentar explicar aquilo pras pessoas? Será que elas não entendiam que aquela capa de celular valia mais que ouro? Que havia nela uma essência que estava perdida do mundo para sempre, e que ninguém jamais poderia recuperar em lugar algum?

O tempo passou. E seu cheiro um dia saiu da capinha de celular, como de todo o resto do mundo. Eu tentei, eu inspirei o ar com força, mas havia sumido. E, mesmo que não tivesse saído, eu já sabia que não podia ficar me prendendo a coisas como capinhas de celulares. E ela virou, finalmente, o que ela sempre fora: uma capinha de couro velha e rasgada. Nesse dia, eu senti o medo de que não havia mais nada físico que me ligasse a você.

Mais tempo se passou. Um dia, me peguei olhando pro espelho. Não do jeito que eu me olho no espelho, todos os dias. Não do jeito que uma mulher (já adulta?) se olha quando se auto-critica ou se auto-admira. Não. Me peguei olhando no espelho de um jeito diferente.
Durante todos esses anos, eu havia escutado muitas frases do tipo:"Nossa, como ela se parece com ele, né?"; "A filha caçula é a cara dele!"; "Ela é cara e fuça"; "Ela gosta de aventuras, e de cantar. Parece o pai, né?"; e blábláblá. Ouvia isso sempre. Eu sorria, concordava com orgulho, e fim.
Mas um dia, eu me olhei no espelho.
E pude ver. Algo nos olhos. No jeito que abaixamos a cabeça quando falamos sobre sentimentos, como se tivéssemos vergonha de sentir as coisas. No jeito como frisamos os lábios, levantamos as sobrancelhas e balançamos a cabeça quando queremos dizer "É, a situação tá feia". No jeito de chorar. E no jeito de rir.
Estava lá.
Em mim.
E o que senti foi ao mesmo tempo óbvio, estranho e maravilhoso. Porque eu acabara de perceber que sim, ainda havia uma coisa física que continha uma parte sua. E que, magicamente, a única forma de eu ficar perto dessa coisa, era ficar perto de mim mesma. Porque era eu.Uma parte de você sempre estaria comigo, nem que eu não quisesse, sempre estaria. O que eram capinhas de celular perto de ter, literalmente, 50% de você comigo?

E aí entra o maravilhoso. Eu acredito, eu sei que há um depois. Eu sei que as vezes você pode ver e sentir o que eu falo. Os cristãos pensam que há outra coisa diferente. Os espíritas, outra. Os budistas, os muçulmanos, crêem em coisas totalmente diferentes. Há quem pense que quando morremos viramos luz e esquecemos tudo que fomos. Há quem não pense nada, que simplesmente morremos, deixamos de existir. Quem está certo?

Não importa quem está certo, ou se há uma teoria certa. O que importa é algo muito óbvio, que filosofia ou crença nenhuma pode contestar: nesse exato instante, uma parte sua vive.
É fato, é claro, é provado cientificamente. Uma parte sua vive.


"Vou, entre a redenção
E o esplendor
De por você viver."
E essa parte de você estava comigo quando passei na faculdade. Vai estar comigo quando eu conseguir o emprego que sonho. Estará comigo se um dia eu me casar. Ela vai cantar a música do lobisomem pros meus filhos.

E espero fazer de tudo para que essa parte sua, tanto a física quanto a outra, tenha orgulho de mim. Já conquistei algumas coisas, algo me diz que você se orgulharia. Ainda não consigo abrir a porteira sem descer do cavalo... Mas tenho certeza que, quando eu conseguir, vou cair na risada por no mínimo meia hora.
E não passa um dia nesse nosso planeta que eu não pense em você. Nem um dia. E eu te amo tanto, e é um amor tão lindo, que quase não cabe em mim. Porque nada pode mudar isso. A falta, a tristeza e a dor que senti, e a alegria e saudades que sinto agora, tudo só serve pra trazer isso: o mais puro e sincero tipo de sentimento que o ser humano pode ter.

"Quando o frio vem nos aquecer o coração

Quando a noite faz nascer a luz da escuridão
E a dor revela a mais esplêndida emoção: O Amor."


Um comentário:

Salem Zamenaph disse...

- Trechos da música "Fênix", de Jorge Vercillo, foram postos entre o texto. A música foi criada quando o cantor passava pela mesma perda descrita.