segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Como se preojulgar

As pessoas se importam. As vezes, elas se importam até demais.

Quando estamos solteiros: "E aí, não tá namorando?"
Quando namoramos: "E aí, não vai casar?"
Quando prestamos vestibular: "Não entrou na faculdade ainda?"
Quando entramos: "Mas quando você se forma?"
E por aí vai.

Um amigo meu perguntou se eu ia fazer mestrado. Eu disse que não, que não me atraía nem um pouco a ideia de ser professora de jornalismo.
E ele pareceu surpreso: "Nossa, pensei que você fosse ir a fundo."
Minha resposta foi sincera: "Meu objetivo é minha felicidade, e não ir a fundo só pra falar que fui a fundo"

Ele pediu desculpas, e me elogiou pela decisão. Mas a conversa me fez pensar: tantas pessoas montam perfis de caminhos que acham que vamos seguir, na cabeça delas... E cobram o tempo inteiro que sigamos um molde pré-estabelecido.

E se eu resolver largar o jornalismo porque caiu a ficha de que meu sonho é vender geladinho no farol? Ou ser jogadora de futebol?
E se eu decidir que quero virar freira e não casar nunca?
E se eu decidir virar eremita e fugir pras montanhas?

Vão continuar gostando de mim?
Continuariam me apoiando, não importa que caminho eu tomasse?

Estava pensando justamente nisso enquanto descia a rua pra comprar pão, quando um dos fiéis habitantes de Ermelino Matarazzo me parou: o senhor de bengalas, que eu nunca lembro o nome, pois me acostumei a chamá-lo mentalmente de "Senhor de Bengalas", apesar dele ser relativamente jovem.

- E aí, menina, quanto tempo! Tudo bem?

Fazia mesmo muito tempo? Não o havia visto semana passada?

- Olá, tá tudo bem, sim.

- Trabalhando?

-Eu...

-Já se formou?

- Na verdade ainda falta um seme...

- Vai casar ou se formar primeiro?- interrompeu ele, antes que eu pudesse terminar a palavra "semestre".

Eu fiquei dois segundos com a boca aberta, sem pronunciar som algum, e depois sorri e respondi de maneira simpática e divertida. No segundo seguinte, quando eu pude finalmente voltar a ficar sozinha com meus pensamentos, pude balbuciar as frases cheias de palavrões e impropérios que eu havia guardado na cabeça. Afinal, qual é o problema com as pessoas?? Será que elas acham mesmo que a vida é só isso: uma lista de coisas a serem cumpridas o mais rápido possível??

Na volta da padaria, encontrei de novo o mesmo sujeito. E de novo ele me parou, dessa vez não pra perguntar, mas pra falar sobre a velhinha da minha rua, que morreu há 2 meses. Eu não me lembrava dela. Só do marido dela (também morto) e principalmente do cachorro deles, pois eu latia pra ele quando era pequena. Você leu certo: eu latia pro cachorro deles, e não o contrário.
O caso é que não conhecia a velhinha. Só queria levar o pão até minha casa e almoçar a feijoada que minha mão fez. Só isso.
Falei isso mesmo, da forma mais educada que eu pude, e a resposta foi:
- Mas foi o excesso mesmo que a matou. Ela comia uma feijoadinha de vez em quando. E bebia vinho, mesmo não podendo. Eu levei o marido dela ao medico, uma semana antes dele falecer. Ele morreu por medo. Tinha um problema no pâncreas, e teve medo de operar.

Então percebi que, apesar de ser uma pessoa que adora "se importar" com a vida do bairro todo, aquele homem não deixava de estar se importando - de maneira positiva, sem aspas. Não era exatamente maldade, cobrança ou julgamento.

Quando pude finalmente subir pra minha casa, com o pão, estava menos inclinada a me revoltar com as cobranças da humanidade. Afinal, com cobranças ou não, há pessoas que se preocupam com a gente. Tirando a "moldagem" que elas fazem inconscientemente, o fato de fazê-la mostra exatamente que se importam.
O que fazer? Simples: Agradeço o carinho e dispenso os moldes. Desejo que todos tenham uma preocupação sábia o bastante pra enxergar mais longe. E sigam seu próprio vento.

2 comentários:

onboard disse...

Oi menininha =)
É isso mesmo....... falou tudo.
E algumas pessoas realmente deveriam ter um GATO!!! É isso mesmo, um GATO, para ter mais 7 vidas pra cuidar =)
Beijos.
Fernando

Salem Zamenaph disse...

hahahaha
É isso aí, primo! Vamos incentivar a adoção de gatinhos!

Grande beijo e obrigada pelo comentário!