sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Cheiro de pipoca doce...


... foi o que a fez, de repente, parar. Ela estava na calçada: acabara de sair do trabalho, caminhava a passos curtos e rápidos, para ir embora. Então, parou. Aquilo a invadiu. Aquele cheiro. Era quente, doce e vermelho.


E ela estava sentada aos pés da árvore. A mesma árvore para onde sempre fugia quando não estava a fim de fazer aula de educação física. Tinha 7 anos? Talvez 8. Estava lendo alguma coisa, quando o cheiro a fez levantar a cabeça, erguendo o pequeno nariz para o ar. Vinha do circo da frente da escola. Ela podia ver o circo, de onde estava. Era um terreno grande, contornado por um rio. Ela sempre lembrava de sua mãe falando que muita gente morrera naquele rio. Agora, ele não parecia matar mais ninguém: fora escondido pelo enorme picadeiro do circo. E, de algum modo, o cheiro da pipoca tinha atravessado o terreno, a rua, subido a rampa da escola e batido em cheio no rosto da menina que lia embaixo da árvore.
De repente, uma Amanda baixinha veio correndo em sua direção, os cabelos escuros presos num rabo de cavalo e um sorriso na bochecha gorducha. Tinha algo nas mãos.
- Você viu? - disse para a menina da árvore - Tão dando pra gente.
Era um papel pequeno, retangular, cor-de-rosa-papel-higiênico. Um ingresso gratuito para o circo.
- A Eliana vai no show! - disse Amanda.
A menina pegou o papel da amiga. Ele tinha um carimbo mal feito do Cebolinha, apontando para o nome do circo. Qual era o nome, mesmo? Realmente, estava escrito que uma Eliana estaria presente.
-Que Eliana?
- A apresentadora!
"Eliana...", pensou ela, "Quem liga pra Eliana??... Será que eles têm elefantes?"


E o cheiro a trouxe de volta. Pra calçada. Em frente ao prédio do trabalho. Tudo tão diferente... Tinha quase o triplo da idade. Seu corpo era outro. Sua voz. Onde estava a árvore? Ainda lá? Será que o rio voltara a matar? Onde estaria o circo? Longe, muito longe. E Amanda? Provavelmente em sua casa, cuidando do filho... Filho! ... E a Eliana... Quem liga pra Eliana? O que será dos elefantes??
A única coisa que continuava fixa, imutável, imponente, era aquele cheiro de pipoca doce.
Atravessava a rua e batia em cheio no rosto da moça. Era doce. Quente, livre, vermelho.

2 comentários:

Made of Steel disse...

Enquanto isso, um índio que estava não-tão-longe sonhava com os momentos que passara com a garota da pipoca doce. Não a conhecia desde a época do circo, mas tenta hoje fazê-la sonhar.

E ele sabe onde encontrar elefantes... =)


Je t'aime! ♥

Salem Zamenaph disse...

Só agora vi seu comentário! :D
Muitas coisas mudaram desde a época do cheiro da pipoca doce, mas uma continua igual: a vontade da garota de abraçar o índio que pensou nela!
E sim, ele a faz sonhar... E nem precisa de elefantes!

Moi aussi, je t'aime!