quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Passividade declarada

Quando saí da minha aula de hoje de manhã, fui embora para casa. O que mais eu faria ali? Estava tendo greve de estudantes pela manifestação para a retirada da PM da USP.
Vi uma rodinha de estudantes sentados de cabeça baixa, literalmente levando bronca de uma senhorinha, que estava de pé, de um metro e meio de altura, dizendo: "Gente, vocês não podem querer que a PM saia". E a cara que eles faziam era de um bando de crianças mimadas, sendo repreendidas por quererem comer doce antes da janta.
Eles falam tanto de Marx... Minha vontade é de parar e perguntar: "Sinceramente, você já leu Marx?". Porque se leu, leu errado. Lembro-me muito bem de Marx falando que a revolução deveria partir da classe operária. Onde está a classe operária? Pergunte ao torneiro mecânico o que ele quer. A resposta vai ser: virar patrão. Nossa classe operária não quer revolução; quer ascensão.
E o que vocês querem? Vocês querem uma polícia que não pare para revistar um estudante só porque ele é negro, certo? Vocês querem uma polícia que não trate mal um casal só porque os dois são do mesmo sexo, certo? Vocês querem uma polícia que se foque mais nos assaltos e estupros que acontecem toda semana no campus, ao invés de implicar com um bando de manés que dividem um baseado entre 20, certo?
Pois bem. É isso que se quer. E não que se tire completamente a PM do campus e deixe o terreno livre para crimes graves continuarem acontecendo.
Sinto dizer, mas não é batendo na polícia que vão conseguir ensinar civilidade e respeito a ela. Não é chamando os caras de "macaco do governo" (apelido usado na ditadura) que vai fazer com que eles, de repente, percebam que o estudante merece ser bem tratado. Quando se xinga a polícia de algo que ela foi no passado, você a faz regredir, ao invés de evoluir. Quando paro pra ver a maneira como os grupos estudantis lutam, tenho a impressão de que alguns estão pouco ligando para conseguir melhorias. Parece que se luta apenas pelo fato de lutar.
Eu já cheguei ao cúmulo de ouvir, certa vez, um estudante dizendo o seguinte: "Nossa, a época da ditadura deve ter sido legal! Iria gostar de manifestar contra eles". Achei nojento. Será que é possível que alguém deseje mesmo que uma época dessas volte só pra terem contra o que lutar? Sinto decepcioná-los, colegas, mas agora vivemos numa democracia. Sim, um Estado de Direito. Perfeito? Não! Com muitos problemas. E deveríamos lutar contra esses problemas, ao invés de inventar outros.
Que tal lutar por um ensino de qualidade? Ou por melhores situações nos transportes públicos? Por um reitor mais democrático que o Berlusconi? Ou até mesmo por uma polícia mais razoável, porque não? Mas mostre seus argumentos com manifestações que não te façam perder a razão. Do jeito que andam fazendo, a única coisa que conseguem é dar "munição ao inimigo”. A imprensa direitista não cansa de taxá-los de vândalos, vagabundos e maconheiros. Ótima imagem.
Agora vamos analisar: foi decretado "greve de estudantes". Vamos pensar um pouquinho no conceito de greve. Greve é uma paralisação de coerção, que obriga o patrão a repensar sobre as causas operárias, com medo de ter seu lucro prejudicado pelo impedimento da produção. Em uma fábrica, isso funcionaria até que bem. Com alguns dias de greve, o patrão levaria prejuízo. Agora, voltemos ao caso: estamos falando de uma universidade pública. Não é uma fábrica. Nem ao menos é uma faculdade paga, que ficaria sem sua mensalidade. Não. É uma universidade pública. Aquela que você se matou de estudar para conseguir entrar, lembra? Me fala uma coisa, amigo: quem você acha que está prejudicando ao não ir à aula, além de si mesmo? Ou você acha que o "governo direitista" ou os PMs estão preocupados se você viu ou não sua aula de hoje sobre Schopenhauer?
Acordem. Sou contra os preconceitos e abusos de poder da PM. Mas também sou contra movimentos estudantis que usam situações simples para alavancar uma revolta malfeita. Muitos dos meus colegas vão me chamar de burguesa. De direitista. Porque é mais fácil taxar de uma coisa só todos aqueles que criticam suas atitudes, ao invés de enxergar as críticas e crescer com elas. Eu, que levei 3 horas pra chegar à universidade (porque não queria levar porrada dentro do trem. Sim, três horas. Sem exageros, pleonasmos nem licença poética), posso te garantir que a maioria dos militantes tem uma vida muito mais burguesa que a minha.
Realmente, não estou mexendo um dedo sequer para ajudar nessa "manifestação". E se amigos meus vierem dizer que sou "passiva", vou concordar com o maior orgulho. Passiva, sim! Pois prefiro não lutar a lutar por algo errado, do jeito errado.


2 comentários:

RRRR disse...

Mas Fernanda, o movimento estudantil tem todas essas bandeiras que você mencionou - acesso a ensino público de qualidade, melhora em transportes, desmilitarização da polícia e treinamento em direitos humanos... A greve de estudantes serve unicamente para fazer com que eles possam se reunir e debater em horário de aula sobre um fato sem precedentes ocorrido e que precisa, sim, de mobilização. Grande parte de quem estuda na USP não tem tempo de aparecer em horários alheios às disciplinas, porque trabalham, entre outras coisas. Com a greve, se faz com que professores apoiem e paralisem esse horário de aula para que a formação conjunta e consequente tomada de posição aconteça. Não tem nada a ver com classe operária, e mesmo assim, grande parte de nós somos operários também - a única diferença é que esse conceito hoje é bem mais pulverizado.

Salem Zamenaph disse...

RRR, obrigada pela sua opinião.

É importante deixar claro que o que estou criticando não são os núcleos que lutam por esses ítens que destaquei (e que são hiper-válidos), mas pelo lema de "fora PM" que está na boca da maioria, passando a ideia errada do que pretendemos lutar. Os atos e as imagens oferecidas da ocupação acabam sendo usados como meio de denegrir a imagem dos estudantes, que acabam se passando como vândalos vagabundos pela imprensa.
Citei os operários porque um monte de estudantes ficam declamando Marx, quando na verdade a classe operária não é o segmento mais visado nesse tipo de mobilização.

E sou contra a Greve de estudantes, mesmo se o objetivo dela for "arranjar tempo" para a mobilização. Quem quer lutar, consegue tempo para se organizar, sem prejudicar nem colocar em cheque a educação, que é justamente um dos tópicos da luta.

Obrigada novamente pela leitura do blog e pelo comentário.