terça-feira, 17 de janeiro de 2012

A morte da beleza

Eram dois. Grandes, amarelos, reluzentes. Olhavam para o sol, felizes, como se tentassem refletir a luz. E eu perdi a noção de quanto tempo fiquei naquela esquina, admirando.
Prometi a mim mesma que no dia seguinte tiraria uma foto dos girassóis. Meu celular já estava cheio de fotos de flores. Rosas, jasmins. Com certeza havia lugar para dois girassóis enormes.

Mas, no dia seguinte, quando eu já estava com o celular na mão à espera de chegar no jardim da esquina, notei que algo faltava. Não vi o amarelo gritante da presença dos dois. No lugar dos girassóis, havia dois galhos da planta, destroçados. Haviam sido violentamente arrancados. Os grossos caules ainda gotejavam seiva. Fui invadida por um misto de tristeza e raiva. Não apenas porque tinham levado os girassóis embora. Não apenas porque tinham me privado da beleza. Mas porque tinham privado o mundo todo dela.

Acariciei uma folha da planta, que agora era uma planta comum, sem suas flores. E desejei que ela sobrevivesse, que vivesse para dar outros girassóis. E assim se fez: na manhã seguinte, lá estavam dois novos brotos da flor. Pequenos, miúdos. Nem de longe tão bonitos quanto os primeiros, mas ainda assim belos. Abriam lentamente, mostrando a volta do amarelo alegre. Sorri, torcendo para que eles estivessem totalmente abertos até o fim do dia. Mas os girassóis foram embora junto com seu astro adorado: quando a noite chegou, eles também haviam sido arrancados.

E todos os dias eram assim: eu desejava que a planta vivesse para dar mais girassóis, novos brotos nasciam (2, 4, 5 de uma vez) e todos eram arrancados. Então, passei a ignorá-la. Deixei de desejar que a planta vivesse. Egoísmo de minha parte? Sim, totalmente. Porque eu estava cansada de ficar triste por causa disso. Quando eu via um pequeno girassol, apenas suspirava e virava a cabeça em outra direção. Pois sabia que ele não estaria lá quando eu voltasse.

Até que, finalmente, veio a morte. A planta de girassóis não teve mais nenhum broto. Apenas um monte de folhas cinzas, ressecadas. E metade de seu caule estava enegrecido, retorcido, culminando em uma folha preta e deformada na ponta, como um braço putrefato. Um braço podre, pedindo uma compreensão que jamais viria.

Começo a pensar que toda a beleza do mundo é como a desses girassóis. Ela pede para viver, para encher os olhos de alegria, para ser vista, para existir no mundo. Mas os seres humanos querem a beleza para si. Não importa se isso significa acabar com ela: eles querem para si.

E então, fico na dúvida: será que somos tão carentes de coisas belas e puras que passamos a amá-las excessivamente, a ponto de querer a posse, mesmo sabendo que isso matará a beleza? Será que nossa sede por algo belo vira uma paixão tão cega que não raciocinamos o que nosso amor fará ao objeto ou ser vivo amado?

Ou será que, na verdade, odiamos a beleza? Que queremos destruí-la, destroçá-la, mas dizemos amá-la e querê-la, só para não aceitar a triste verdade: que a odiamos porque nos sentimos tão feios, tão errados e tão sozinhos no mundo que a imagem de algo bonito, certo e natural simplesmente nos incomoda? Que acabamos por não suportar o belo, pois ele não combina conosco, e só serve para nos lembrar da nossa própria decadência?

Não cheguei a uma conclusão.

6 comentários:

Ulisses disse...

Muito bom esse texto, retrata espantosamente bem boa parte da humanidade; de fato a inveja da beleza e o egoísmo de possuí-la devem ser as principais características das pessoas que tem esse tipo de gesto (E não apenas de maneira literal, mas também simbólica, já que exatamente as mesmas atitudes são, muitas vezes, feitas com pessoas). E no fundo, as duas alternativas (Egoísmo/inveja)não passam de duas faces da mesma moeda: o mal de querer ser especial! O que muitas pessoas não vêem é que torna o ser humano especial é justamente o fato de não se achar especial... quando todos entendermos isso, um girassol poderá ser apreciado por todos nós, seguro de que lá ficará, dia e noite!

Pirajá disse...

Acompanhei essa história de perto, infelizmente. Impossível esperar respeito pela natureza vindo de uma criatura que mal respeita a si própria ou seus semelhantes.

Mas é como disse um certo padre uma vez para uma garotinha que lamentava a morte do seu cãozinho: "Eles não tem alma".

Salem Zamenaph disse...

Muito obrigada pelos comentários, pessoal!

Ulisses: Sim, nós não fazemos isso apenas com flores, mas também com pessoas, lugares e sentimentos. Mas acho que a saída para que um girassol e qualquer outra coisa bela fique viva e possa ser apreciada não é o ser humano perceber que o belo dele está em não se achar especial, e sim o contrário: quanto percebermos que SOMOS especiais, tão especiais quanto cada flor, pessoa, animal e lugar, aí sim poderemos respeitar a eles e a nós.

Mon indien absurde: Pois é, ter alma é um privilégio de poucos. E estou a cada dia mais convencida de que um belo girassol tem mais alma do que a pessoa que o arranca, e que o cãozinho tem mais alma que o padre.

Beijos!

Thomas Aner disse...

Texto pujante, marcado com uma narrativa envolvente; excelente!

http://mentearcana.blogspot.com/

Camila Góes disse...

Lindo texto com uma reflexão super pertinete. Sempre me questiono porque não sabemos lidar com as belezas do mundo...
Bjos.

Salem Zamenaph disse...

Obrigada pelos comentários, Thomas e Camila! Assim que der, passo no blog de vocês para ler seus textos, que com certeza devem ter muitas questões interessantes para serem tratadas.
Realmente, lidar com a beleza do mundo requer mais sabedoria do que estamos propensos a ter...
Abraços.