sexta-feira, 4 de maio de 2012

Em busca da renda azul royal perfeita

Não seria muito difícil. Eu precisava comprar tecidos para fazer um vestido medieval. A festa seria logo, e não tinha muito tempo. Tinha um papel com o nome dos tecidos que precisava.
Desci a 25 de Março e fui naquela loja de tecidos de nome difícil. Nove andares. Era chegar, escolher e ir embora. 
-Vocês têm renda azul royal? - perguntei.
Tinha renda branca, preta, lilás, roxa, vermelho sangue, vermelho vivo, verde folha, verde musgo, amarelo sol, amarelo ouro, rosa bebê, rosa fúcsia.... Menos azul. Saí de lá meio frustrada. Ok, tinham muitas outras lojas por ali.
Loja seguinte: -Estou procurando renda azul royal.
-Ah, temos aqui!
Abri um sorriso, até ver a vendedora me oferecendo uma renda que mais parecia uma toalha de mesa velha, toda despontada e de aspecto horrível. Mas era azul, afinal.
-Ergh.. obrigada, vou dar mais uma procuradinha.
Andei em mais umas 4 lojas, e todas tinham a mesma resposta.
-Renda azul royal?
-Não.
-Não.
-Lógico que não.
Lógico? Será que era mesmo tão lógico assim? Olhei pro cara como se eu tivesse perdido alguma coisa. Provavelmente uma lei federal que proíbe rendas azuis.
Quinta loja.
-Ah, temos sim. Vou te mostrar.
Tinham duas. A primeira era tão grossa que acho que eu poderia usar como escorredor de macarrão. A segunda era fina e leve, mas tinha desenhos de flores tão grandes e bregas, umas coladas nas outras, que eu automaticamente me imaginei vestindo uma cortina. 
- Estou procurando algo mais fino, ou com outro desenho. Mas obrigada.
Ia dar as costas e sair, quando a vendedora, uma mulher baixinha de meia idade, abaixou a cabeça e olhou para cima, com olhos sombrios. Se aproximou de mim, sorrateira, e disse:
- Tem uma loja que tem o que você procura. - ela sussurrava - Vou anotar o endereço atrás do meu cartão, mas terei que fazer isso rápido. Se souberem que estou indicando, estou frita.
Eu arregalei os olhos e me vi dobrando os joelhos para ficar na mesma altura dela, em um instante me sentindo a Carmen San Diego. 
-Eu vou até a porta com você... - continuou a mulher, nos sussurros - E te falarei para ir para a loja de fantasias. Mas não é pra lá que você vai! Isso é só pra despistar. Você vai para o endereço que está atrás do cartão... - me passou o cartão como quem passa um diamante no meio da Rocinha - E não mostre esse cartão a ninguém. Se te perguntarem, você não soube disso por mim!
Interpretamos a cena. Quando me vi na rua, tive que olhar para o meu papel de anotações, para ter certeza que eu tinha pedido renda azul royal, e não cocaína feita com mão de obra infantil. Estava certo. Qual era o problema com as pessoas??
O endereço secreto era o número 13 da rua da frente, primeiro andar. Uma loja de tecidos, comum. Subi, e um homem de traços árabes me recebeu com um sorriso e foi me mostrar as rendas deles. Não tinha nenhum azul. Mas tinham várias brancas, e ele me garantiu que podia tingir e deixar no mais bonito azul que existisse. Bastava pagar a mais, e esperar dois dias.
- Eu gostaria de comprar direto azul... - expliquei- Porque não tenho muito tempo.
- Ah, beleza! - ele sorriu - Toma, suba a ladeira e vá na loja do lado do metrô. Procure o Godoaldo, diga que foi o Walter que te mandou. Ele tem rendas azuis pra você.
Minha cabeça já latejava. Cheguei na loja, depois de subir a ladeira com aquele uniforme negro e quente do trabalho, e procurei o Godoaldo em questão. Era um homem baixo, gordo, de rosto quadrado e boca fina de sapo.
-Oi, Godoaldo. O Walter me mandou aqui. Você tem renda azul royal? 
-Ah, o Walter! Pode me acompanhar.
De repente, eu vi. Era de um azul forte, maravilhoso. Leve, fina e deliciosa. Com desenhos de flores, mas envoltas em ramos que faziam voltas e curvas. Perfeita.
Peguei a renda nas mãos, e coloquei em cima do braço, para ver como ficaria por cima da pele. Simplesmente linda. Os ramos dançavam e faziam formas delicadas pela pele do meu pulso, e eu me descobri apaixonada pelo meu próprio braço. Poderia ficar olhando um tempão, mas não quis perder tempo. Tive vontade de pular e dar um beijo na careca do Godoaldo, tamanha era a felicidade.
-É ela!! É linda! Preciso de 3 metros.
- Sem problemas. - disse ele, com sua cara de sapo, já pegando o metro e fazendo o tecido girar - Fica quinhentos e vinte reais.
...
Quinhentos e vinte reais... as palavras ecoaram em volta de mim, e eu me vi caindo no nada, num universo escuro e roxo. Ao voltar ao chão, uma onda de enjoo subiu da minha barriga até a cabeça, me dando uma tontura rápida.
Uma voz tétrica que eu não reconheci como sendo minha, vinda do submundo, saiu da minha boca, falando no mesmo tom usado por Édipo quando ele descobrira que tinha matado o pai e transado com a mãe:
- Posso ficar com o cartãozinho? Obrigada. Tenha uma ótima manhã, Godoaldo.
E saí da loja, de mãos abanando, apenas para receber no rosto o sol das 11 horas.
Tive vontade de, hipoteticamente, fazer duas coisas ao mesmo tempo. Poderia hipoteticamente chorar de desespero até inundar a 25 de Março, o que daria pra fazer apesar de ser uma ladeira, tamanha era a frustração. Ou poderia, hipoteticamente, rir, gargalhar até os músculos da minha barriga reclamarem, guinchando e rolando no chão, como uma hiena. Decidi por hipoteticamente dar um pequeno muxoxo e um sorriso irônico, pois era uma atitude que hipoteticamente combinava mais comigo.
Dei meia volta e entrei no metrô. Chegaria poucos minutos mais cedo no trabalho. 

4 comentários:

Lari disse...

Ai senhorita Salem, que historia!
Fiquei com medo da vendedora que te indicou a loja....
E fiquei frustrada como final, imaginei vc na hora.....

Lari disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Salem Zamenaph disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Salem Zamenaph disse...

Obrigada por ler meu texto, Lari! XD

Nossa, foi realmente frustrante!! Aquela vendedora era bizarríssima! hahaha

No fim das contas, acabei comprando uma renda branca e mandando tingir. Achei uma renda bonita (e barata). É a do vestido que estou usando na minha imagem de perfil do face. :)

Um grande beijo, ragazza! :D