terça-feira, 4 de setembro de 2012

O Gato


Ela subia a rua de sua casa, apressada. Que horas eram? Tarde. Sempre muito tarde. E a rua estava tão vazia... Já seria meia noite?
Vazia. Ela sempre dizia a mesma coisa para sua avó. “Não se preocupe, nada vai acontecer comigo”. E não ia. As pessoas sempre se preocupavam demais com ela. Afinal, o que uma garota magra poderia fazer contra um mundo mau? Ela deu um muxoxo. Podia fazer muita coisa! Pra começar, andar mais rápido.
Perto da esquina de casa, viu o gato. Olhando fixamente para ela. Amava gatos. Sempre parava para acariciá-los, e eles sempre se deixavam acariciar. Por algum motivo, os gatos iam com a sua cara. Já acontecera mais de uma vez de gatos desconhecidos se enroscarem em suas pernas, pedindo carinho. E o gato cinza-chumbo de sua melhor amiga, que todos diziam ser ruim como o diabo, simplesmente a adorava.
Não havia ninguém na rua, e ela se permitiu a se aproximar do bichano. Por algum motivo sentiu uma estranha sensação de aversão. Mas ignorou. Era um gato, e ela gostava de todos os gatos.
Abaixou-se para chamá-lo, e se aproximou. Quando chegou bem perto, a luz do poste refletiu no rosto do animal, e ela se conteve para não soltar um grito: um dos grandes olhos do gato estava totalmente estragado, negro, como uma bola de gude arranhada, e a fitava de maneira assustada e doentia.
O espanto dela assustou o bicho, que se escondeu pelas sombras da noite.

A imagem do rosto daquele gato durou alguns dias. Assombrava sua mente de um jeito muito peculiar. Poucos dias se passaram e, numa noite quente, a moça abriu a janela para apreciar a lua. Já estava prestes a fechá-la, quando seu coração disparou: o luar estava iluminando a imagem de um gato no telhado, logo abaixo de sua janela. Encarando-a. Com um olho brilhante refletindo a lua. E o outro escuro.
Seu espanto foi tal, que o gato novamente saiu correndo assim que a viu. Por quê? O que era aquilo? O que queria dizer? Passados mais dias, a imagem a perseguia. Viu o desenho de um gato pichado num muro, com um olho negro e outro branco. E também viu uma menina no ônibus, lendo um livro: o livro estava aberto na página em que tinha o desenho de um gato assustador, com um dos olhos negros.
Não se conteve. Foi até a garota e perguntou do que se tratava o livro. “É ‘O Gato’, de Edgar Allan Poe”, foi a resposta. Curiosa, a moça procurou o conto o mais rápido possível.

Tratava-se de um homem que tinha um gato do qual gostava muito. Certa vez, por motivos psicologicamente estranhos que só o Poe entenderia, o homem ficou violento e começou a bater no bichinho. Chegou a arrancar-lhe um olho e a matá-lo. Depois disso, um outro gato caolho apareceu na casa, e o homem cuidou dele (por culpa?). Mas o cara continuou enlouquecendo até matar sua esposa e emparedar o corpo dela, na casa. A policia passou por lá, e só descobriu o corpo porque um som saía de dentro da parede. O homem já estava doido, por conta do som.  Era o gato que, mesmo nunca tendo se voltado contra o dono, de algum jeito macabro voltara para mostrar ao homem os seus crimes. Ele entrara na parede no momento que o homem prendia o corpo lá dentro, antes de emparedá-lo, e assim a polícia descobriu tudo.

Ela leu o conto, e chegou a algumas conclusões. Aquele gato representava duas coisas. Primeiro, o mágico dentro dela mesma. Pois todos nós temos um olho bom e um olho mau. E é importante não termos medo de nossos lados, pois só assim conseguimos domá-los e lidar bem com eles.
Segundo, o medo. Aquele gato era símbolo das coisas que ela temia, e que por sua vez temiam a ela. Como no conto do Poe, o medo se enfia pelas nossas paredes, se esgueira pelas nossas defesas, e se enfia em lugares que a gente achava que tinha coberto com cimento e tijolo. E de lá, de dentro da parede que achamos ter, ele fica miando. Ele fica miando, até ficarmos loucos, sem saber de onde vem o barulho. Até que o som atrai todos de novo ao lugar que estava teoricamente cimentado, e precisamos quebrar tudo, tirar o corpo, e o enterrar de verdade.
A moça se sentiu bem melhor depois dessas conclusões que, se não fossem certas, pelo menos faziam sentido.  
Depois disso, ela ainda avistou o gato algumas vezes. Na primeira, se aproximou e tentou fazer, de novo, o que faria com qualquer gato: acariciá-lo. Pois não tinha mais medo. Aceitou seu lado negro, assim como aceitou seu medo. Não poderia pegar o gato ou levar a um veterinário, mas pelo menos poderia mostrar a ele que seu coração estava livre para não temer nem odiar.  
O gato nunca se deixou acariciar. Sempre fugiu, assustado. Quem sabe um dia ele não entenda que todos nós já sofremos nessa vida? Todos nós já sentimos as mesmas dores. Quem sabe um dia ele não deixe de sentir medo da moça?

Meses se passaram. A moça voltou a encontrar o gato, mas nunca sozinho. Ele estava, agora, acompanhado por outros gatos, um cinza e um malhado. O cinza e o malhado vinham cumprimentá-la e se deixavam acariciar. O gato caolho, nunca. Encontrou-o, uma última vez, sozinho. E sempre o comportamento dela era o mesmo: sorria para ele, do jeito mais sincero que encontrava. Depois disso, ele nunca mais foi visto.

Ela às vezes pensava no que poderia ter acontecido com ele, e se entristecia. Foi um animalzinho que sofreu muito. Mas, no fundo, ela sabia que havia um motivo para o gato não aparecer mais para ela. Ele deixara de ser o símbolo que ela precisava lidar.
Ela sorrira para o medo. Feito isso, ele deixa de existir.

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