sexta-feira, 9 de novembro de 2012

A debandada dos gnus

Peguei o trem na estação de Comendador Ermelino, em direção ao Brás. Eram 18h da tarde. Quando ele chega na estação, já podemos ver a multidão que vai entrar no mesmo trem, para voltar em sentido Calmon Viana.
Assim que o trem começa a chegar perto do Brás, as pessoas que estão nele já se dirigem à porta do primeiro vagão, que é a única destinada à saída. Obviamente, os gnus não conseguem entender que as pessoas precisam sair do trem para que eles possam entrar, então essa porta teve de ser reservada para evitar o pisoteamento iminente. 
Mas, ontem, cometi um erro pelo qual me considero culpada sem direito a julgamento: me distraí lendo um dos livros sobre o tema do meu TCC. Quando dei por mim, a saída da primeira porta já estava lotada, e não havia como chegar até ela. Mesmo que eu ficasse no fim do aglomerado da saída, eu ainda estaria na zona de perigo. No instante que vi a plataforma, fui invadida por um sentimento interessante. Consegui parar para analisar o que era: pavor! Pavor no sentido puro da palavra. 



Corri para me sentar, pois ficar em pé significava abraçar a morte. Sentei em um dos bancos cinzas do trem, ao lado de outra porta, pois ele tinha os ferros do lado esquerdo para me proteger. E foi quando aconteceu: a porta se abriu, e a debandada estourou. 
Uma onda de gnus entrou pela porta, atropelando e passando por cima do que quer que estivesse na frente deles. Não importava se o obstáculo era ou não algo vivo: eles passariam por cima. 
Foi uma cena tão triste e desesperadora de se ver que eu nem pensei em pegar o celular para filmar e vender o vídeo pro Animal Planet. Apesar de estar encolhida no banco, ainda levei uma chicoteada no rosto, da alça da mochila de um gnu de óculos.
No segundo seguinte, eles dominavam todos os centímetros do espaço em volta. 

E eu precisava sair do trem. No meio dos gnus, vi uma mulher de traços colombianos, segurando uma menina de uns 7 anos pela mão. A garota tinha os mesmos traços da mãe, e levantava o braço, apertada entre os animais. Elas não tinham entrado com a debandada, obviamente, senão estariam mortas. Elas entraram depois, e por isso lutavam para não se perderem entre os bovídeos.
A menina tinha o olhar mais assustado que eu já havia visto. 
-Senta aqui! - chamei a mãe.
A mulher pareceu não entender.
-Esse lugar é de vocês!
A mãe só entendeu quando eu fiz o gesto para ela ir até lá, o que ela fez, se espremendo entre os outros. Levantei, mas deixando a bolsa no lugar que eu estava antes, para ele não ser automaticamente preenchido por um gnu. Apenas quando a colombiana chegou, eu tirei e bolsa, e ela se sentou, colocando a menina no colo.
Ela provavelmente não falava português, mas me devolveu um sorriso tão grande que me valeu o dia.

Fui pedindo licença para sair, o que eu sabia que não adiantava muito. Assim que fui saindo, a gnu fêmea que estava bem na frente do lugar que eu acabara de ceder para a colombiana fez um muxoxo e me olhou feio.
- Ela não tinha direito ao assento preferencial. - resmungou a gnu - A criança não é de colo!
Virei a cabeça para ela, com um ar confuso.
-Me desculpe, a senhora falou alguma coisa? Porque eu só escutei um relincho...
Ela não devia saber o que "relincho" significava, pois apenas me encarou com ar débil. Continuei abrindo espaço para sair, entre barulhos de aprovação de alguns gnus.

Quando já estava livre e segura, comecei a pensar qual era a razão para seres humanos se comportarem de maneira tão grosseira e caótica. Será que ninguém lá tinha o mínimo de raciocínio lógico? Ou, pelo menos, de consciência espacial? Como um bando de seres com polegares opositores consegue vir correndo, atropelando e estraçalhando tudo que tiver na frente, sem a menor capacidade intelectual?
Seria o governo o culpado por isso? Afinal, a precariedade dos transportes públicos, a falta de incentivo à educação, a falta de trens e a má distribuição da cidade (que faz todo mundo sair das periferias para trabalhar, e depois voltarem todos no mesmo horário) são defeitos públicos graves. Será que os governantes são, eles também, gnus?
E as pessoas? Estão ausentes de qualquer responsabilidade, por serem "vítimas" da falta de organização social de São Paulo? Quase ri ao escrever essa frase. É de extrema hipocrisia tirar a culpa de um povo que, mesmo se tiver educação, não está aberto a ser educado. Um povo egoísta, rude e pobre de espírito - que é a pior pobreza que existe.
Para pessoas assim, só resta mesmo debandar.


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Observações: Nenhum gnu foi maltratado para a escrita desse texto. 
Como uma amante dos animais, quero deixar claro que não tenho preconceito com relação aos gnus verdadeiros.  Mas tenho preconceito, E MUITO, com os gnus humanos com quem eu sou obrigada a conviver todos os dias.

2 comentários:

Márcio Melo disse...

Todos somos "gnus", em alguns graus... e sendo que o que está fora é semelhante ao que está dentro, dentro de nós há esses milhões de consciências desorientadas... são partes nossas...

Salem Zamenaph disse...

Muito profundo. Temos mesmo milhões de consciências desorientadas...

Mas eu prefiro absorver a essência do gnu no que diz respeito à sobrevivência (já que ele, juntamente com a zebra, é um dos animais mais bem sucedidos na fauna africana), à determinação materna (elas enfrentam até leões pra defender o filhote) e à força.

Com relação à educação e à nossa capacidade de andar em grupo, prefiro torcer para sermos mais como as formigas, pássaros ou até peixes. Pelo menos não atropelaremos ninguém.