quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

"Minha opinião sobre '50 tons de cinza'" ou "Por que eu acho que todas as cópias desse livro deveriam ser queimadas"

Olá a todos!
Primeiramente, não tenho a menor intenção de ofender as leitoras e fãs do livro "50 tons de cinza". O que vou colocar aqui é 100% opinião minha, e ninguém precisa concordar. Vocês podem ofender as obras de Machado, se quiserem. Podem xingar "100 anos de solidão". Podem falar mal da Clarisse, do Huxley, do Goethe, do Poe, da Jane Austen, de Camões, de Pessoa. Podem criticar a febre do Game of Thrones. Podem ofender todos os livros que eu gosto, à vontade! Se tiverem argumentos, eu até vou ouvir.

E também não poderão dizer o lugar-comum óbvio de "Você não leu o livro inteiro, não pode criticar".
Eu me esforcei! Juro! Não sou de largar um livro só porque a personagem principal é insegura e idiota. Prova disso é que li todos os livros da saga Crepúsculo. E hoje consigo analisá-los friamente e entender por que fez sucesso: dois estereótipos de homens (o bonzinho-rico e o mecânico-sem-camisa) que alucinam a mente adolescente. Ok. Eu posso entender por que as adolescentes gostam desses estereótipos, assim como posso entender por que garotos sonham com loiras peitudas. Entender, não concordar.
Agora, sinceramente, não consigo entender por que as mulheres se encantaram com um livro que devia, na verdade, suscitar raiva e revolta.

Não, isso não tem a ver com o fato do livro ter caráter "erótico". Eu apoio e incentivo qualquer manifestação de saúde sexual feminina: a mulher deve, sim, ver vídeos, ler contos ou o que quer que seja que estimule sua sexualidade e que lhe dê prazer. Um amigo meu veio, esses dias, falar que se sente incomodado quando vê pessoas lendo "50 tons de cinza" no metrô, porque todos sabem que aquela pessoa está lendo sacanagem. É como alguém ler Playboy no metrô. Eu dei risada e disse que a gente tem que aprender a não ser moralista. Portanto, a crítica não é pelo tom erótico. A crítica também não é para pessoas que gostam de sadismo ou masoquismo em suas relações sexuais. A crítica é total e irreversivelmente para pessoas que se identificam com a personalidade da moça da história. Ou seja, que possuem a autoestima de uma barata marinha. 

Um livro no qual a personagem lê um "Contrato de Submissão", no qual o cara a chama de "submissa" o tempo todo, que fala sobre espancamentos e surras. Um livro onde essa personagem lê sobre esse contrato absurdo e só consegue pensar "Caramba, não quero que ele controle as jujubas que eu como!". Não, não tem essa frase no livro, mas é isso que acontece. Ela parece se preocupar mais com o fato dele dizer que vai controlar a alimentação dela do que com o fato dele a estar xingando de capacho. 

 A Anastasia Steele do livro é ridiculamente insegura. Qualquer coisa que o Grey-sei-lá-o-quê faça é linda, simplesmente porque ele está olhando pra ela. Ele pode estar contando sobre como é um controlador idiota, mas se soltar um "eu estou atraído por você", ela já se derrete em mares de alegria e esquece tudo, porque "oh, meu deus, ele está atraído por mim! Por mim, a desengonçada! Ninguém poderia se atrair por mim!". Parece um cachorrinho que leva uma surra, enfia o rabo entre as pernas e no segundo seguinte está pulando de alegria, implorando "Goste de mim, goste de mim! Olha, eu sei ser boazinha!"
Não interessa se ela acaba não assinando o contrato, não interessa se nas continuações do livro ela começa a ser mais segura, não interessa se ela vai deixando de ser idiota e o cara vai se tornando mais manso e apaixonado. Não interessa, porque esse é o típico mecanismo de "Transforme um monstro no seu amor eterno" que faz com que milhares de mulheres fiquem achando que basta se sujeitar para o sujeito mudar. É mais uma literatura que formará mulheres dependentes e doentes.


Apesar de ter sacado tudo isso, eu me esforcei para continuar lendo. A Anastasia faz umas "rebeldias", como não olhar pro chão o tempo todo ou escolher o que quer tomar quando lhe perguntam, ao invés de dizer "O que você quiser, senhor". ISSO é a rebeldia dela! E ela já acha que é o cúmulo da intransigência, e morre de medo dele desistir dela só por causa dessas pequenas coisas.
Daí veio o seguinte diálogo:
"-Você é capaz de me obedecer?
-Eu vou tentar."


E então, eu fechei o livro. Ele deveria ser queimado. Todas as cópias, em praça pública, enquanto mulheres dançam em volta da fogueira cantando e gritando mantras de guerra. Ahhh, isso sim. Essa imagem me acalmou. Por um segundo.
POR QUE VOCÊS GOSTAM DESSA PORCARIAAAA??? Essa droga tá no topo dos livros mais vendidoooos! Tem mulheres colocando coisas como "Eu quero um Christian Grey pra mim!" no Facebook e no twitteeeeer!! Qual é o problema com vocês, me digam?? Se vocês gostam das cenas de sexo, ok. Isso eu entendo. Mas gostar e SE IDENTIFICAR com a personagem?

Querem mais motivos? O livro é contado em primeira pessoa, por essa Anastasia aí. Ela é uma moça de 21 anos que se odeia. Ela começa o livro xingando o próprio cabelo, que não fica do jeito que ela quer. Falando como ela é feia e sem atrativos. Ela nem ao menos sabe andar! Em menos de meia hora de leitura do livro, ela já tropeçou umas 100 vezes, e em duas delas ela cai estatelada no chão como uma jaca madura! Não, não é por causa do salto alto! Se fosse um salto fino nessas calçadas de São Paulo, eu ia aplaudir pela crítica, porque é realmente desumano andar de salto num chão desses. Mas não. Ela tropeça e cai num piso liso e perfeito, usando tênis! Pouco tempo depois, ela cai de novo (duas vezes na frente do amado Sr. Grey que ela tá a fim).  Problema neurológico, mesmo! Ela deveria ser avaliada por um médico!

O livro continua, com ela falando o quanto é sem graça, e ficando feliz e radiante toda vez que o tal Grey dá a entender que está a fim dela. Daí ele mostra que é sádico, dá o "Contrato de Submissão" (sim, é esse o nome) pra ela assinar, e ela fica se perguntando se quer continuar com o caso amoroso. Ela chega à conclusão de que, se ela não se sujeitar, ela nunca mais terá um namorado. Quem vai gostar dela? Ninguém. Então, ela precisa aceitar, né?
Pois é. Isso aí é o modelo de mulher com a qual as leitoras estão se identificando.
O que eu posso dizer disso? Que vocês, leitoras que se parecem com a moça do "50 tons de cinza", deveriam procurar uma sessão de terapia em massa!

Tem um monte de mulheres dizendo que os homens precisam ler esse livro, para "finalmente entenderem como uma mulher quer ser tratada". Vocês estão loucas? Querem criar monstros?? Eu já vi títulos de blogs masculinos falando "Como conquistar uma mulher lendo 50 tons de cinza", onde o cara aconselhava a ser controlador! Já não basta o discurso machista que muita gente usa, de que "mulher de malandro gosta de apanhar"... Agora vocês querem que eles realmente acreditem que a gente tem tesão por isso?

Só no Brasil, uma mulher é agredida a cada 15 segundos. Pois é. Enquanto você lia isso aqui, 17 mulheres foram agredidas. E a autora do livro vem me dizer, em entrevistas, em nome de todas as mulheres, que no fundo queremos isso? Que um homem deve tratar uma mulher assim: controlando o que ela faz, pensa, veste, come, para onde vai, o que diz. E que, se ela recusar, deve bater. E que ela deve ADORAR isso?

Pra completar, a personagem ainda ganha um computador, um carro, veste só as roupas caras que ele dá. Ela reclama, ela não quer usar, mas usa! Resumidamente: as mulheres esqueceram o que acontecia no passado e estão querendo voltar aos tempos em que nós obedecíamos em tudo e, em troca, ganhávamos o luxo do dinheiro dos homens. Bravo!

Sinceramente, se fosse uma ou outra mulher que gostasse disso, eu ia respeitar. Tem gente que gosta mesmo de fazer tudo que o namorado/marido/companheiro quer, que gosta de ser comprada e que se sente bem assim. Problema delas.
Mas a questão é que não é uma mulher ou outra! Essa porcaria foi comprada por mais de 200 mil pessoas em menos de 3 semanas, só no Brasil! Mundialmente, tá perto dos 30 milhões! É o primeiro lugar entre os livros mais vendidos, no mundo todo!

A única conclusão que eu tiro disso é que o ser humano (sim, tanto as mulheres quanto os homens) estão tão inseguros e carentes que não conseguem mais se suportar. Eles precisam de uma história onde o personagem se sente um idiota, mas mesmo assim é amado. Porque as pessoas estão se sentindo idiotas, mas querem ter a esperança de que alguém possa gostar delas apesar disso.

E essa é a coisa mais TRISTE que eu já percebi na humanidade.

11 comentários:

Thi Marreti disse...

Triste, é ver o quanto gastou palavras e tempo -nesse processo todo-, pra falar de algo q você diz "abominar".
Triste também por ter perdido meu tempo lendo o texto de uma revoltada e reprimida. Vou matar quem me indicou!!! Melhor!! Vou matar quem indicou pra tal pessoa, pois sei que esta compartilha das mesmas opinião que eu.
Caso se revolte novamente, tente "terapia".
Ter a pia cheia de louças, panelas de feijoada e afins, costumam ajudar.
Abraços e Mta Felicidade nessa sua vida! ;)

Thi Marreti disse...

ps. depois de alguns copiar e colar desesperados aqui no cel, consegui postar o comentario. Mas um "s" passou despercebido!!! Putz!! kkkkkkk Perdão!!!

Salem Zamenaph disse...

Olá, querida Thi
Eu sabia que alguma fã do livro ia ficar, como você mesma citou, "revoltada". Se alguém te indicou, é porque mais pessoas compartilham da minha opinião. Aliás, muitas pessoas vieram parabenizar o texto.
Eu tenho o direito de me revoltar com o que quiser, assim como você tem o direito de não concordar. E sim, aconselho todos a fazerem terapia, porque muita gente precisa. Acho que você sabe mais disso do que eu. :)
Quero deixar claro que um dos motivos que me fez ficar com toda essa raiva do livro foi ter escrito meu TCC sobre "Mulheres que Amam Demais", que são mulheres que sofrem muito pelo perfil de se deixarem abusar por homens e relacionamentos destrutivos, e esse livro é um veneno para qualquer pessoa que precise de ajuda nesse sentido. Se você se identifica com a personagem, só posso desejar do fundo do coração que um dia supere isso.
Sobre lavar louça, realmente não gosto. Quer vir lavar a minha? Estou ocupada demais trabalhando (sim, eu trabalho escrevendo).
Muito obrigada pela opinião e por aumentar o número de visitas do blog. Te desejo igualmente muita felicidade. E estou sendo sincera.

Salem Zamenaph disse...

P.S: Foram 2 "s" que saíram a mais. Isso, ou você escreveu "opinião" ao invés de "opiniões". Erro normal para alguém que escreveu de forma tão histérica, apesar de criticar a revolta alheia. Você foi paradoxal? Acho que sim. Considere um elogio. ;)

Anônimo disse...

Leio o livro "50 tons de cinza" e estou adorando. Adorei também essa crítica, pois é um meio de demonstrar o que se pensa. Minha opinião é a seguinte: A autora quis fazer um tipo de homem que fosse o sonho de uma mulher. Bonito, dominador na hora do sexo, rico e esperto. Vimos que a intensidade erótica ajudou a apimentar as páginas. Mas cá entre nós. Mulheres se inspiraram na personagem principal é loucura.

Gosto da história pela sua parte erótica e espero uma evolução da personagem. Confesso que já senti vontade de fechar a obra, mas aguentei.

Parabéns pela crítica. Está ótima.

Anônimo disse...

Leio o livro "50 tons de cinza" e estou adorando. Adorei também essa crítica, pois é um meio de demonstrar o que se pensa. Minha opinião é a seguinte: A autora quis fazer um tipo de homem que fosse o sonho de uma mulher. Bonito, dominador na hora do sexo, rico e esperto. Vimos que a intensidade erótica ajudou a apimentar as páginas. Mas cá entre nós. Mulheres se inspiraram na personagem principal é loucura.

Gosto da história pela sua parte erótica e espero uma evolução da personagem. Confesso que já senti vontade de fechar a obra, mas aguentei.

Parabéns pela crítica. Está ótima.

Salem Zamenaph disse...

Olá, Jefferson!
Muito obrigada pelo comentário. Gosto muito de pessoas que sabem conversar e mostrar seus argumentos.
Então, até a parte que li, eu também havia gostado dos trechos eróticos. Como citei no texto, eu acho muito interessante tudo que exprima a liberdade de sentimentos e desejos. O erotismo do livro é bem feito, pois é bem descritivo. Pra isso, o livro serve.
Sobre sua opinião: concordo que ela quis fazer o perfil de homem dominador, pois numa relação sexual os papéis de dominador e dominado ressaltam a diferença homem/mulher mais primitiva que existe - há um ativo e um passivo para criar a dualidade que faz a coisa ficar boa. O que me revolta é ela trazer esse papel de dominador e dominado para a vida cotidiana, para a personalidade, entende? Um homem dominador FORA DA CAMA não é legal. Uma mulher dominada, tampouco. É machismo, é retrógrado. E é perigoso as pessoas acharem que as mulheres, no geral, gostem disso. Resumindo, concordo com você: identificar-se é loucura. E é isso que me preocupa, pois já vi muitas por aí se identificando.

Agradeço novamente pela opinião e pelo elogio à crítica. Vou torcer para tê-lo como leitor em textos futuros. :)

Fernando Previdi disse...

Fernandinha, mandou muito bem no texto!!! kkkkkk (rs). Agora o vídeo no YouTube foi bem "profundo", acho que todo mundo deveria assistir e re-pensar naquela parte que o cara lembra da POR@#@ do livro sendo vendido em cada esquina, disponível pra cada adolescente como se fosse uma "historinha de romance". Vale o Link do vídeo: http://youtu.be/cbPOnKzQIj0
Beijos.
Fernando Braite Previdi

Salem Zamenaph disse...

Olá, Fê!
Muito obrigada por ler meu texto! E obrigada também por colocar o link aqui, esse vídeo é realmente bom. hahaha
É mesmo um absurdo,isso! E foi uma coisa que nem citei no meu texto, mas que também é muito grave: adolescentes lendo, como se fosse uma literatura leve e juvenil... É muita hipocrisia. Enquanto isso, o desenho do Pica-pau tem censura de 11 anos. Nosso país não faz sentido...
Abraços bem fortes!!!

Vanessa Vasconcelos disse...

Olá! Adorei seu texto. Não li o livro, e muito menos tenho curiosidade de ler.
Nada que eu ouvi de elogios do livro despertou minha atenção, ao contrário das críticas negativas.
Esse livro deve ser um lixo, essa Anastasia é um lixo humano.

Minha nossa, e o pior que uma amiga minha fez a maior propaganda deste livro, dizendo que esse tal de Grey é um sonho de homem (oi??)

Acho que muitas mulheres se identificam porque o cara é rico e bonito, e é o que a maioria das moças (leia-se piriguetes) buscam em um homem.

Elas não querem um homem que vai lhe amar e lhe respeitar quando você está com tpm, gorda, ou com um cancer. Elas querem um cara que tenha um carro pra levá-las nas festinhas, que dê de presente perfumes importados e jóias, que chame ela de princesa, e pergunte: Você quer o que de presente? Um iPhone5, uma viagem pra Paris...?


Vão se ferrar (queria usar uma palavra mais forte mas minha educação não permite) essas mulheres loucas! Vão estudar e batalhar pelo de vocÊs, por que depender de pai e mãe, é ruim, imagina de um cara qualquer aí...

Salem Zamenaph disse...

Falou tudo, Vanessa!

Sério, o que mais me irrita é ver mulheres com esse tipo de atitude. Caramba, batalhamos tanto pra conseguirmos conquistar nossa liberdade, nossa posição como ser humano, nosso direito de trabalhar... Pra um bando de inseguras ficar babando por uma história misógina, uma situação submissa onde um cara comanda sua vida. Onde está o romantismo nisso?

Pra mim, o romantismo é você se olhar no espelho todo dia e sorrir. E, mais tarde, sair com o homem que você gosta e que te faz bem. É muito simples, mas as pessoas adoram complicar.

Muito obrigada por ler o blog! :D