quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Morrer em Ermelino Matarazzo??

Eu estava no celular, tagarelando animadamente, quando o trem parou. Ele ficou um bom tempo parado, e isso é comum. Só que então, ele começou a andar no sentido contrário ao que ele ia. Desliguei o celular e olhei para as pessoas. Só eu estava percebendo que ele estava andando pra trás??
-Devido a atos de vandalismo, o trem se recolherá de volta para a estação USP Leste. -anunciou a voz.

Quando o trem parou na estação e abriu as portas, não esperei duas vezes. Saí e fui falar com o segurança. Era só uma estação até a que eu iria descer, queria saber se o trem voltaria a andar logo. Foi quando vi o fogo. Ele estava no trilho, brilhando lá longe...

-Esse trem não vai voltar a andar tão cedo. - disse o segurança. - Acho mais vantagem a senhora descer e pegar um ônibus.

Foi o que eu fiz, no meio de pessoas que já reclamavam e enchiam a plataforma. Não demorou nem um minuto para um ônibus passar. Entrei, sentei na janela, onde adoro ficar, e respirei aliviada. De repente, vejo um grupo de pessoas correndo na direção do ônibus.

"Eles devem estar apressados pra pegar o ônibus, coitados.", pensei. "Devem estar sem condução há horas, por causa dos vândalos. Espero que o motorista pare".

Mais tarde, me senti muito inocente e burra por não ter percebido que ELES eram os vândalos. Depois que tive esse pensamento cheio de compaixão, tudo aconteceu muito rápido. O ônibus parou. Alguém gritou. O ônibus cantou o pneu, o motorista perdeu a direção, alguém do meu lado gritou "Não para, não para!!! Acelera!".

E então, os estouros. Muitos, por todos os lados, enquanto as janelas (inclusive a que estava do meu lado) explodiam. Senti pessoas caindo pelo chão.

"São tiros! Eu vou morrer. Pronto.", pensei. "Vou morrer em Ermelino Matarazzo". A ideia teria me feito cair na gargalhada, porque era muito irônico. Mas não ri. Eu estava abaixada no assento, sentindo alguém quase em cima de mim, tudo coberto de cacos e  areia de vidro, enquanto o ônibus cantava pneu e rodava na pista. Alguém tinha entrado? Tinham atropelado alguém?

Tirei gentilmente uma moça que estava em cima de mim, e olhei bem rápido pro meu tronco. Tudo certo. Então, olhei pra ela. Perguntei se ela tinha se machucado e, enquanto ela me olhava com os olhos maiores que eu já tinha visto no mundo, percebi que escorria sangue da perna dela. O sangue que estava na minha mão provavelmente era de lá. Enquanto isso, uma menina de uns 3 anos berrava no colo do pai, outro senhor tinha sangue na cabeça, e eu fiquei sem saber quem ajudava primeiro.

O primeiro grande alívio foi perceber que os estouros não foram tiros, e sim grandes pedras. O senhor que machucou a cabeça tinha sido acertado por uma (que, ainda bem, não era muito grande, foi um machucado superficial). Mandei mensagem muito rápido pra todos os meus amigos, porque achei melhor evitar que qualquer pessoa chegasse perto de Ermelino. A moça que caíra em cima de mim tinha um corte de vidro na panturrilha, e meu segundo grande alívio foi ver que, apesar da grande quantidade de sangue e de talvez precisar de uns pontos, ela estava bem. O bebê só chorava.

O ônibus parou na estação de Ermelino, num posto policial, apesar dos gritos de alguém para que ele "não parasse NUNCA MAIS" (acho que ele viraria um trailer e teríamos que viver no ônibus para sempre). Tudo parecia bem, então segui correndo pra casa. As únicas coisas que eu queria eram minha casa, meu gato e um chá.

Só quando eu subia a rua, foi que percebi que meu dedo indicador doía muito. Minha mão continuava cheia de sangue. "Nossa, acho que isso aqui não era sangue da perna da moça, afinal". Não. Era bem meu, e escorria de um jeito nauseante.
Mais tarde, me sentiria idiota de novo, porque tudo era flores enquanto eu ajudava as pessoas. Mas quando o sangue é meu, minha pressão decide que o melhor a se fazer é cair o máximo possível. Foi um corte pequeno, apesar de fundo, provavelmente feito por um dos cacos de vidro da janela que estava ao meu lado. Mas é incrível como até pequenos cortes, quando feitos com vidro, sangram copiosamente.

Esse "atentado" de vândalos em Ermelino Matarazzo, apesar de assustador, não foi quase nada. Foi bem leve, na verdade. Não teve tiroteio, e todos saíram bem, com um ou dois cortes. Mas tudo isso me fez lembrar que um dia eu pensei em ser uma jornalista de guerra.

HAHAHAHAHHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA

Não. Não, mesmo. No fim do dia, eu sou só uma moça esguia de 1,59 metros e 48Kg, que tem calma suficiente pra ajudar as pessoas, mas que fica enjoada quando vê que cortou o dedo.

Repórteres da Faixa de Gaza, entrar pra história é com vocês!! Eu fico por aqui.




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