quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Areia nos olhos

Quantas vezes enchemos o peito para dizer “Eu não sou isso”. E, no final do dia, é exatamente isso que somos.

Li “O Homem da Areia”, de E.T.A. Hoffmann, quando tinha 17 anos. Foi um conto que me fascinou imensamente, e nunca mais o esqueci. Cinco anos depois, me reencontrei com ele em Paris, num belo dia em que entrei em um espetáculo de ópera. Não associara o nome da peça, em francês, ao conto que eu lera em minha fase donzela.

E ali, sentada nas cadeiras do mezanino alto, com aqueles pequenos binóculos que as pessoas usam para ver as óperas (os mesmos binóculos maléficos que Nathanael usa para ver Coppelius da torre?), o cheiro, as cortinas vermelhas de veludo pesado, a música, tudo me envolvia numa fumaça de nostalgia inebriante. E lá, o homem da areia apareceu. Olímpia, o autômato, e a obsessão de seu enamorado Nathanael. Fui tendo aquele momento de compreensão que chega de fininho, onde você se pergunta várias vezes a mesma coisa, “Mas isso não é... aquela história... sim, é ela!” até que me encontrei debruçada no mezanino, totalmente tomada.

Mais anos se passaram. E eis que me deparo novamente com o homem da areia.

Não vi nenhuma peça, nenhuma associação, nada. Encontrei-me com ele dentro da minha própria cabeça. Ele apareceu assim, como quem aparece em uma peça de ópera que você entra sem saber o nome.

Quantas vezes o homem com o saco não jogou areia nos meus olhos? Quantas vezes não confundi  meros autômatos com pessoas reais? Estaríamos todos à mercê de sua areia?

Sim, estamos. E cabe apenas a nós lavarmos o rosto.
Olímpia que me desculpe, mas eu sou de carne.

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