segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

DOMINGO

Suas palavras novamente me emocionaram. Eu já as tinha lido. Ou melhor, escutado. Mas me emocionaram mesmo assim. Uma pequena palavra de três letras era nova, no fim. E outras eram antigas, bem antigas, mas tão especiais! Ocitocinas, panaceias.

Tenho muito orgulho da capacidade que tenho de chorar sem fazer barulho nem mexer um único músculo do rosto. Lógico que, quando posso, eu deixo que o choro venha acompanhado de mil caretas. Não podia. Não podia fazer caretas, e não podia chorar pois não deu vontade.  Apenas duas lágrimas pequenininhas, que ninguém viu. Eu mesma não veria. Pequenas e tiradas uma de cada olho, quase que forçosamente. Cada uma caiu em um dos meus pulsos, como mágica. Já não consigo chorar mais. Meus olhos secaram como o Sistema Cantareira.

Você faz parecer que a escolha foi minha. Que naquele domingo em que você pensou que era o fim, minha mensagem estava dando o fim. Mas em outro domingo, mais de um ano antes desse, eu lembro não de uma mensagem, mas de uma ligação. Mensagens, ligações, que mania é essa nossa de mandar coisas sérias por meios eletrônicos que bem sabemos nunca deram certo?

Naquele domingo, em uma ligação, ouvi sua voz. Não parecia sua. E ela disse algo que fez eu comprovar que a expressão “quebrar o coração” é realmente mentirosa. Não senti o coração quebrar. Nem senti coração. O que aconteceu foi uma sensação muito parecida com a que a Amélie Poulain teve em uma das cenas do filme: me transformei em água, inteirinha, e escorri pelo chão me esparramando. Não literalmente, óbvio. Figurativamente, esparramei pelo chão de uma garagem que nem era a minha. E o chão era inclinado.  Se fosse literalmente, teria eu escorrido até a rua e entrado em um bueiro qualquer?



Não chorei. Virei água por dentro. Escorri por um bueiro sujo imaginário. Respondi qualquer coisa como “Tudo bem”. Desliguei o telefone. Dormi. E no dia seguinte (ahhh, no dia seguinte” sim), uma água verdadeira e literal saiu como tsunami pelo que eu chamava de olhos. Não houve bueiro honesto o suficiente em seu digno ofício de bueiro que salvasse a cidade de virar uma segunda Atlantis. Pelo menos para mim.

Desde esse domingo, sua opinião mudou algumas vezes, e eu inundei o mundo tantas outras. Mas, ao contrário do que seu relato faz parecer, de forma triste e que me emocionou, não fui eu que pus um fim. Minha mensagem de domingo não terminou nada. Pelo jeito, sua ligação também não. Prova disso foi outro domingo: o passado, aliás. Vulgo ontem.

Agora, não me sinto triste. Nem feliz. Sinto-me plenamente capaz de entender o que você disse sobre amor. Até de sentir.  Coisas que nunca pensei. Para sempre? Não. Por um momento ou outro. Permitir-me, libertar-me, sentir tudo que isso pode fazer sentir. Nos poros, na pele. Na vontade. Experimentar. Gostar. Querer. Ousar. Calar.

Mas no fim... no fim meu coração sai do peito e ressoa um batimento de eco. Delicioso.  De onde vem? De alguém que eu talvez não conheça. Ou conheça. Não é sonho de menina, não é conto de fadas nem historinha de amor idealizada.

É só essa intuição estranha. Eu amei uma primeira vez. Eu amei uma segunda vez, mais ainda, como bem sabe. Posso amar uma terceira vez. Três é o número da perfeição, afinal. Somado ao oito (o que eu, em minha emoção, vivo atualmente), dá onze. A força. Minha força. E a dele. Seja ele quem for.

E por essa terceira pessoa meus olhos voltarão a se encher, e por ela eu posso até voltar a chorar. Mas por ela meus olhos também voltarão a ser mais brilhantes que a estrela LBV 1806-20. Através dos lábios dela, eu ouvirei que sou única. E eu serei única.  E é por ela que vou apagar a luz do abajur ao lado da cama. “Vamos dormir, querido”. “Mas amanhã é domingo!”. “... Verdade! Vamos fazer a feira juntos?”


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