terça-feira, 25 de agosto de 2015

A pata do papagaio

O contador Afonso Silva não tinha inimigos e gozava de boa saúde. Mas, naquela manhã, teve certeza de que iria morrer.

E não era aquela certeza que todos nós temos, de que “um dia” morreremos, uma data colocada em um futuro longínquo e nunca imaginado pela maioria das pessoas. Afonso sabia que iria morrer do jeito horrível e desesperado que um rato na ratoeira sabe que vai morrer, que um peixe pescado sabe que vai morrer, que Antonieta a caminho da guilhotina sabe que vai morrer. Do jeito em que se acorda na terça, mas não se acorda na quarta. Descobriu isso assim que entrou na cozinha para tomar o café.

Desistiu do café e foi até o telefone. Ligou para o trabalho e falou que estava de cama e não iria. Que idiota passaria o último dia da vida trabalhando como contador? Quando o filho chegou da faculdade, encontrou-o guardando uma pasta na gaveta.

- Faltou no trabalho, pai? Tá tudo bem?
-Não. Vou morrer. Veja como está o papagaio.

André foi até a cozinha e olhou para a gaiola. Viu o papagaio de sempre: cinzento e alegre, que torcia o pescoço e falava um “oi, André” ensinado há muito tempo. Ele estava empoleirado em uma pata só. A outra estava encolhida como se machucada.

-Ah, não… - o rapaz gemeu – Essa baboseira de novo?

A família sempre havia contado a lenda. O papagaio, que já existia antes do próprio Afonso nascer, era o animal de estimação da casa. Certa vez, ficou empoleirado com apenas uma pata, e só a mãe de Afonso reparou no fato. Naquele dia, o pai dela teve um ataque cardíaco. Depois de uns anos, na segunda vez que o papagaio ficou assim, o veterinário foi chamado e não viu nada de errado com a ave. Foi só quando a avó de Afonso teve um AVC e caiu morta que o pássaro voltou a colocar as duas patas no poleiro, como se nada tivesse acontecido.

Desde então, o papagaio havia voltado a suspender o pé mais 3 vezes: quando o pai de Afonso caiu da construção em que trabalhava; quando a mãe de Afonso, dona do pássaro, padeceu com um câncer de pulmão; e finalmente quando a esposa de Afonso, que foi morar na casa da família após o casamento, teve uma complicação com o diabetes. Agora, moravam apenas Afonso e o filho André. Certa vez o rapaz perguntou ao pai porque ele não se livrava do bicho, e Afonso disse que a finada mãe, avó de André, havia feito ele prometer que não desfaria da ave por causa de uma superstição boba.

- Vou morrer, filho. Aceite isso.
-O senhor só tem 51 anos. Não é hora de morrer, pare de falar bobagens. E se isso fosse verdade, como o senhor sabe que é você quem morre?
-É sempre o mais velho da casa que morre, André. Pelo menos foi assim nas 5 vezes. - Afonso pegou as chaves de casa - Eu te amo, filho. Mas não se sinta ofendido, não vou passar meu último dia de vida com você.

Saiu de casa, e voltou apenas quando estava escurecendo. Com um porshe vermelho.

-Mas que porra é essa? - André foi correndo até a garagem pra ver o carro.

 Afonso saiu do veículo todo sorridente. Fedia a perfume barato de mulher.

- Estava aproveitando meu último dia, filho. Fiz muitas dívidas, mas você não vai precisar pagar nada, quando eu morrer. Viu que lindo meu carango?
- Pai, você está completamente maluco…
-Antes morrer como um completo maluco que morrer como um completo babaca.

Afonso entrou na casa e saiu logo em seguida, com a pasta que estava mexendo de manhã.

- Aqui está toda a papelada para meu velório. E comprei um jazigo.- André tentou falar, mas ele interrompeu - Está tudo certinho, filho. Agora vou passar minhas últimas horas curtindo meu porshe. Te amo.

Ele deu um beijo na testa de um André estupefato e saiu em disparada com o carro. Por volta das 20h, Afonso escutou o celular tocar. 

-Fala, filho.
-Onde o senhor está?
- Na autoestrada com o porshe. Vou desligar, menino.
-Pai, o papagaio morreu.

Afonso achou que tinha ouvido errado.

- Eu estava no banho e quando fui pra cozinha, ele estava morto no chão da gaiola. - continuou André.
-Tem certeza?
-Ah, tenho. Ele está bem morto mesmo.

André só ficou ouvindo o barulho da estrada, e o silêncio do pai. De repente, Afonso começou a ter uma crise de riso.

- Eu tinha esquecido… - o pai riu mais e continuou - … tinha esquecido que papagaios vivem uns 80 anos, e ele devia ter uns 60. Ele era mais velho que eu. E é sempre o mais velho da casa que morre.
- O senhor pode voltar, agora, pra gente conversar sobre como faremos para pagar… Pai?

A linha havia ficado muda. André tentou ligar mais umas 5 vezes, sem sucesso. Depois de algumas horas, a polícia entrou em contato. Seu pai havia batido o porshe em um caminhão. Mais uma vítima de trânsito por culpa da desatenção causada pelo celular.  

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