sexta-feira, 7 de abril de 2017

Pra que serve a palavra?

Preciso escrever. Preciso escrever, porque tive um sonho, e nele me pediam que escrevesse.
Era uma festa da época colonial, da época da corte, mesmo. Todos com roupas antigas e vestidos armados, perucas. Literalmente alguma festa do século 16 ou 17? Não sei dizer. Eram aqueles vestidos lindos e exagerados que vemos em novelas ou filmes de época. 
Eu também estava vestida assim. Andei até a marquesa, duquesa? Não sei o que era ela. Só sei que era um título muito importante, uma mulher de alta classe da corte. Ela deveria ter uns 57 anos, o pescoço revelava uma idade já avançada, mas isso não tirava a beleza do seu colo. Mulher sensual, rosto bonito, olhos muito azuis. Lembro de pensar "Nossa, quero envelhecer como essa mulher".
Ela levantou e foi caminhando comigo para fora do salão, longe dos olhares. A camareira dela se juntou a nós: uma moça de não mais que 20 anos, vestido simples, cabelos castanhos escuros arrumados em cachos, olhos quase pretos. Lembro de prestar muita atenção ao nariz dela: era fino, longo e de ponta levantada. Achei um nariz bonito e diferente, parecia nariz de fada.
Quando estávamos longe da vista dos outros, elas deram as mãos. E me contaram sobre o amor delas.
Elas eram tão apaixonadas uma pela outra que eu conseguia sentir a energia do amor e da paixão. Ainda sinto agora, acordada, enquanto escrevo. Me contaram como era difícil: o preconceito por serem mulheres, o preconceito por se amarem, o preconceito até pela diferença de idade. Ninguém sabia, obviamente. Se encontravam quando a camareira ia arrumar o quarto. A marquesa era casada? O marido era violento com as duas? Não lembro detalhes, mas acho que algo parecido com isso foi dito. Lembro mais da sensação, elas dizendo o quanto doía, o quanto sofriam. E que eu precisava contar isso.
Elas me fizeram escrever um papel, e nele eu escrevia "Se a palavra serve para alguma coisa, é para contar sobre as minorias, é para fazer diferença." De novo, não lembro detalhes, mas a frase era mais ou menos isso. E depois eu escrevia que contaria a história de (e escrevia o nome inteiro de uma) e de (e escrevia o nome inteiro da outra). Elas insistiram para que eu escrevesse todos os sobrenomes, e lembro que eram muitos. Me sinto culpada por não lembrar. Um deles era algo como Priscila Resende Bari, mas tinham muitos outros sobrenomes entre esses três.

Acordei com essa certeza: se a palavra serve para alguma coisa, é pra contar sobre as dores da minoria. Minoria essa que nem é minoria! Existem mais mulheres que homens, nesse mundo. O sofrimento que existia nos séculos passados ainda é o sofrimento que existe no meu século. Abri o Facebook: uma atriz de 82 anos conta que, na juventude, foi estuprada por um diretor de TV com quem trabalhava, e em outra situação por quatro marginais. Uma figurinista de uns 25 anos conta que atualmente foi vítima de assédio pelo ator com quem trabalha, José Mayer. Uma travesti foi morta e teve o vídeo vazado na internet. Um homossexual foi demitido do Banco Itaú por postar uma foto de mãos dadas com seu noivo. Dor. Muita dor. No passado e no presente.

Quantas mulheres não foram estupradas física ou psicologicamente para se encaixarem em padrões que não eram os delas? Quantas e quantos homossexuais não perderam a vida, não perderam seu amor ou a possibilidade de viver esse amor? Quantos não perdem ainda hoje?
Os padrões da época da corte continuam entre nós, dançando entre nossa sociedade com seus espartilhos e perucas, com toda a dor e superficialidade que eles representam. Com toda a imposição de comportamento, sexualidade e beleza que mata tudo o que tem de valor na personalidade de alguém.

As coisas estão caminhando pra melhor? Sim, acredito que sim. Enquanto a atriz de 82 anos ficou quieta na época, pois era ela que iria sofrer se contasse, a figurinista de 25 contou. Talvez a marquesa do meu sonho e sua camareira poderiam assumir seu amor na nossa sociedade atual. Mas ainda é muito cedo pra dizer que estamos livres. É preciso dizer. A palavra serve pra mostrar, pra lutar, pra resistir. 

Eu tive esse sonho. E quantas mil pessoas ele não representa?
Aqui está a minha palavra, e ela serve pra isso. Faça a sua servir, também.


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