terça-feira, 17 de janeiro de 2012

A morte da beleza

Eram dois. Grandes, amarelos, reluzentes. Olhavam para o sol, felizes, como se tentassem refletir a luz. E eu perdi a noção de quanto tempo fiquei naquela esquina, admirando.
Prometi a mim mesma que no dia seguinte tiraria uma foto dos girassóis. Meu celular já estava cheio de fotos de flores. Rosas, jasmins. Com certeza havia lugar para dois girassóis enormes.

Mas, no dia seguinte, quando eu já estava com o celular na mão à espera de chegar no jardim da esquina, notei que algo faltava. Não vi o amarelo gritante da presença dos dois. No lugar dos girassóis, havia dois galhos da planta, destroçados. Haviam sido violentamente arrancados. Os grossos caules ainda gotejavam seiva. Fui invadida por um misto de tristeza e raiva. Não apenas porque tinham levado os girassóis embora. Não apenas porque tinham me privado da beleza. Mas porque tinham privado o mundo todo dela.

Acariciei uma folha da planta, que agora era uma planta comum, sem suas flores. E desejei que ela sobrevivesse, que vivesse para dar outros girassóis. E assim se fez: na manhã seguinte, lá estavam dois novos brotos da flor. Pequenos, miúdos. Nem de longe tão bonitos quanto os primeiros, mas ainda assim belos. Abriam lentamente, mostrando a volta do amarelo alegre. Sorri, torcendo para que eles estivessem totalmente abertos até o fim do dia. Mas os girassóis foram embora junto com seu astro adorado: quando a noite chegou, eles também haviam sido arrancados.

E todos os dias eram assim: eu desejava que a planta vivesse para dar mais girassóis, novos brotos nasciam (2, 4, 5 de uma vez) e todos eram arrancados. Então, passei a ignorá-la. Deixei de desejar que a planta vivesse. Egoísmo de minha parte? Sim, totalmente. Porque eu estava cansada de ficar triste por causa disso. Quando eu via um pequeno girassol, apenas suspirava e virava a cabeça em outra direção. Pois sabia que ele não estaria lá quando eu voltasse.

Até que, finalmente, veio a morte. A planta de girassóis não teve mais nenhum broto. Apenas um monte de folhas cinzas, ressecadas. E metade de seu caule estava enegrecido, retorcido, culminando em uma folha preta e deformada na ponta, como um braço putrefato. Um braço podre, pedindo uma compreensão que jamais viria.

Começo a pensar que toda a beleza do mundo é como a desses girassóis. Ela pede para viver, para encher os olhos de alegria, para ser vista, para existir no mundo. Mas os seres humanos querem a beleza para si. Não importa se isso significa acabar com ela: eles querem para si.

E então, fico na dúvida: será que somos tão carentes de coisas belas e puras que passamos a amá-las excessivamente, a ponto de querer a posse, mesmo sabendo que isso matará a beleza? Será que nossa sede por algo belo vira uma paixão tão cega que não raciocinamos o que nosso amor fará ao objeto ou ser vivo amado?

Ou será que, na verdade, odiamos a beleza? Que queremos destruí-la, destroçá-la, mas dizemos amá-la e querê-la, só para não aceitar a triste verdade: que a odiamos porque nos sentimos tão feios, tão errados e tão sozinhos no mundo que a imagem de algo bonito, certo e natural simplesmente nos incomoda? Que acabamos por não suportar o belo, pois ele não combina conosco, e só serve para nos lembrar da nossa própria decadência?

Não cheguei a uma conclusão.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Cheiro de pipoca doce...


... foi o que a fez, de repente, parar. Ela estava na calçada: acabara de sair do trabalho, caminhava a passos curtos e rápidos, para ir embora. Então, parou. Aquilo a invadiu. Aquele cheiro. Era quente, doce e vermelho.


E ela estava sentada aos pés da árvore. A mesma árvore para onde sempre fugia quando não estava a fim de fazer aula de educação física. Tinha 7 anos? Talvez 8. Estava lendo alguma coisa, quando o cheiro a fez levantar a cabeça, erguendo o pequeno nariz para o ar. Vinha do circo da frente da escola. Ela podia ver o circo, de onde estava. Era um terreno grande, contornado por um rio. Ela sempre lembrava de sua mãe falando que muita gente morrera naquele rio. Agora, ele não parecia matar mais ninguém: fora escondido pelo enorme picadeiro do circo. E, de algum modo, o cheiro da pipoca tinha atravessado o terreno, a rua, subido a rampa da escola e batido em cheio no rosto da menina que lia embaixo da árvore.
De repente, uma Amanda baixinha veio correndo em sua direção, os cabelos escuros presos num rabo de cavalo e um sorriso na bochecha gorducha. Tinha algo nas mãos.
- Você viu? - disse para a menina da árvore - Tão dando pra gente.
Era um papel pequeno, retangular, cor-de-rosa-papel-higiênico. Um ingresso gratuito para o circo.
- A Eliana vai no show! - disse Amanda.
A menina pegou o papel da amiga. Ele tinha um carimbo mal feito do Cebolinha, apontando para o nome do circo. Qual era o nome, mesmo? Realmente, estava escrito que uma Eliana estaria presente.
-Que Eliana?
- A apresentadora!
"Eliana...", pensou ela, "Quem liga pra Eliana??... Será que eles têm elefantes?"


E o cheiro a trouxe de volta. Pra calçada. Em frente ao prédio do trabalho. Tudo tão diferente... Tinha quase o triplo da idade. Seu corpo era outro. Sua voz. Onde estava a árvore? Ainda lá? Será que o rio voltara a matar? Onde estaria o circo? Longe, muito longe. E Amanda? Provavelmente em sua casa, cuidando do filho... Filho! ... E a Eliana... Quem liga pra Eliana? O que será dos elefantes??
A única coisa que continuava fixa, imutável, imponente, era aquele cheiro de pipoca doce.
Atravessava a rua e batia em cheio no rosto da moça. Era doce. Quente, livre, vermelho.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Passividade declarada

Quando saí da minha aula de hoje de manhã, fui embora para casa. O que mais eu faria ali? Estava tendo greve de estudantes pela manifestação para a retirada da PM da USP.

Vi uma rodinha de estudantes sentados de cabeça baixa, literalmente levando bronca de uma senhorinha, que estava de pé, de um metro e meio de altura, dizendo: "Gente, vocês não podem querer que a PM saia". E a cara que eles faziam era de um bando de crianças mimadas, sendo repreendidas por quererem comer doce antes da janta.

Eles falam tanto de Marx... Minha vontade é de parar e perguntar: "Sinceramente, você já leu Marx?". Porque se leu, leu errado. Lembro-me muito bem de Marx falando que a revolução deveria partir da classe operária. Onde está a classe operária? Pergunte ao torneiro mecânico o que ele quer. A resposta vai ser: virar patrão. Nossa classe operária não quer revolução; quer ascensão.

E o que vocês querem? Vocês querem uma polícia que não pare para revistar um estudante só porque ele é negro, certo? Vocês querem um polícia que não trate mal um casal só porque os dois são do mesmo sexo, certo? Vocês querem uma polícia que se foque mais nos assaltos e estupros que acontecem toda semana no campus, ao invés de implicar com um bando de manés que dividem um baseado entre 20, certo?

Pois bem. É isso que se quer. E não que se tire completamente a PM do campus e deixe o terreno livre para crimes graves continuarem acontecendo.

Sinto dizer, mas não é batendo na polícia que vão conseguir ensinar civilidade e respeito a ela. Não é chamando os caras de "macaco do governo" (apelido usado na ditadura) que vai fazer com que eles, de repente, percebam que o estudante merece ser bem tratado. Quando se xinga a polícia de algo que ela foi no passado, você a faz regredir, ao invés de evoluir. Quando paro pra ver a maneira como os grupos estudantis lutam, tenho a impressão de que alguns estão pouco ligando para conseguir melhorias. Parece que se luta apenas pelo fato de lutar.

Eu já cheguei ao cúmulo de ouvir, certa vez, um estudante dizendo o seguinte: "Nossa, a época da ditadura deve ter sido legal! Iria gostar de manifestar contra eles". Achei nojento. Será que é possível que alguém deseje mesmo que uma época dessas volte só pra terem contra o que lutar? Sinto decepcioná-los, colegas, mas agora vivemos numa democracia. Sim, um Estado de Direito. Perfeito? Não! Com muitos problemas. E deveríamos lutar contra esses problemas, ao invés de inventar outros.

Que tal lutar por um ensino de qualidade? Ou por melhores situações nos transportes públicos? Por um reitor mais democrático que o Berlusconi? Ou até mesmo por uma polícia mais razoável, porque não? Mas mostre seus argumentos com manifestações que não te façam perder a razão. Do jeito que andam fazendo, a única coisa que conseguem é dar "munição ao inimigo”. A imprensa direitista não cansa de taxá-los de vândalos, vagabundos e maconheiros. Ótima imagem.

Agora vamos analisar: foi decretado "greve de estudantes". Vamos pensar um pouquinho no conceito de greve. Greve é uma paralisação de coerção, que obriga o patrão a repensar sobre as causas operárias, com medo de ter seu lucro prejudicado pelo impedimento da produção. Em uma fábrica, isso funcionaria até que bem. Com alguns dias de greve, o patrão levaria prejuízo. Agora, voltemos ao caso: estamos falando de uma universidade pública. Não é uma fábrica. Nem ao menos é uma faculdade paga, que ficaria sem sua mensalidade. Não. É uma universidade pública. Aquela que você se matou de estudar para conseguir entrar, lembra? Me fala uma coisa, amigo: quem você acha que está prejudicando ao não ir à aula, além de si mesmo? Ou você acha que o "governo direitista" ou os PMs estão preocupados se você viu ou não sua aula de hoje sobre Schopenhauer?

Acordem. Sou contra aos preconceitos e abusos de poder da PM. Mas também sou contra movimentos estudantis que usam situações simples para alavancar uma revolta malfeita. Muitos dos meus colegas vão me chamar de burguesa. De direitista. Porque é mais fácil taxar de uma coisa só todos aqueles que criticam suas atitudes, ao invés de enxergar as críticas e crescer com elas. Eu, que levei 3 horas pra chegar à universidade (porque não queria levar porrada dentro do trem. Sim, três horas. Sem exageros, pleonasmos nem licença poética), posso te garantir que a maioria dos militantes tem uma vida muito mais burguesa que a minha.

Realmente, não estou mexendo um dedo sequer para ajudar nessa "manifestação". E se amigos meus vierem dizer que sou "passiva", vou concordar com o maior orgulho. Passiva, sim! Pois prefiro não lutar a lutar por algo errado, do jeito errado.



quinta-feira, 29 de setembro de 2011

90 dias

90 dias que parecem 90 no calendário.
90 dias que parecem 9 pela força do desejo.
90 dias que parecem 900 pela força do sentimento.

Cerca de 90 dias antes da contagem dos 90 dias, uma moça olhava para o céu estrelado de madrugada. Era a única acordada, tomada por uma insônia que insistia.
E era impossível olhar praquela lua sem ter vontade de ter alguém ao lado dela pra admirá-la. Será? Onde? E quem? Eram essas as perguntas mais frequentes.
Algumas lunações depois, a mesma moça se encontrou perdida no centro da cidade. De madrugada, novamente. Não estava perdida, sabia muito bem onde estava. Mas onde as pessoas haviam ido?
"Tem tanta gente por aqui...E se eu encontrasse o amor da minha vida, agora?", pensou. E depois riu sozinha. Era óbvio que seria impossível achar um amor no meio daquela muvuca toda... Não conseguia encontrar nem seus amigos!

Mas a vida é irônica o tempo todo. É irônica quando quer te machucar, e irônica quando quer te fazer feliz. Porque a garota olhou para um moço vestido de guerreiro.

E em 71 dias a partir daquele que o viu, experimentou um crescente de pensamentos muito curioso: alguém arrogante e prepotente. Ok, alguém que se destaca de outras pessoas. Humm, ele não é o que eu tinha pensando. Aparentemente, me atrai. Por quê? É a voz, o sorriso, o jeito de falar? Algum motivo tem de ter. Repita essa frase: "ele é só um amigo com quem eu gosto de falar". Repita até que acredite nela. "E eu sou só uma amiga com quem ele gosta de falar". Hahaha. Ok, se isso te convence... A mim, não convence nem um pouco. Convence, sim!! Se pra ele não é isso, é outra história. Pra você, ele é um amigo com quem você gosta de falar, e ponto!... Mas precisa gostar TANTO assim? E essa vontade de conversar ainda mais, apesar de terem passado praticamente o dia inteiro se falando? Nossa, a gente passou MESMO o dia inteiro se falando! E essa vontade de sentir o cheiro do pescoço dele, e de viajar para mundos imaginários toda vez que o vê com o tronco nu? É só um amigo, que eu admiro. Ok. Um amigo com quem eu quero falar 24 horas por dia, que eu admiro e por quem me atraio fisicamente. Um amigo, sim. Um amigo que, antes de dormir, eu imagino me beijando longamente.
...
Ai, droga!

Eis que a bruxa se apaixona pelo índio. E mal teve tempo de tentar resolver isso: a bagunça já estava feita. E por acaso ela queria que a bagunça se desfizesse? Não, não queria. E por que haveria de querer? O que está feito, está feito. E por 4 dias ela ficou apreensiva, sem saber notícias, mas com o queixo em pé de quem não desaprova sua própria "falha de caráter". Com a confiança de quem sabe dar de ombros e aceitar a bagunça que fez, independente do que viria depois.

De repente, com uma frase, a apreensão se desfez. Com um abraço, o adiamento se desfez. E com um beijo, o chão se desfez. E tudo que foi feito a partir daquele momento foi refazer os pensamentos impossíveis em ações reais e possíveis, magicamente possíveis.

90 dias depois.
90 dias sentindo a maturidade das minhas emoções.
90 dias sabendo o gosto do seu beijo.
90 dias sabendo a sensação de estar nos seus braços.
90 dias contando com seu amor, quando era justamente ele o que eu mais precisava.

90 dias que parecem 9 pela força do desejo
90 dias que parecem 900 pela força do sentimento.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Como se preojulgar

As pessoas se importam. As vezes, elas se importam até demais.

Quando estamos solteiros: "E aí, não tá namorando?"
Quando namoramos: "E aí, não vai casar?"
Quando prestamos vestibular: "Não entrou na faculdade ainda?"
Quando entramos: "Mas quando você se forma?"
E por aí vai.

Um amigo meu perguntou se eu ia fazer mestrado. Eu disse que não, que não me atraía nem um pouco a ideia de ser professora de jornalismo.
E ele pareceu surpreso: "Nossa, pensei que você fosse ir a fundo."
Minha resposta foi sincera: "Meu objetivo é minha felicidade, e não ir a fundo só pra falar que fui a fundo"

Ele pediu desculpas, e me elogiou pela decisão. Mas a conversa me fez pensar: tantas pessoas montam perfis de caminhos que acham que vamos seguir, na cabeça delas... E cobram o tempo inteiro que sigamos um molde pré-estabelecido.

E se eu resolver largar o jornalismo porque caiu a ficha de que meu sonho é vender geladinho no farol? Ou ser jogadora de futebol?
E se eu decidir que quero virar freira e não casar nunca?
E se eu decidir virar eremita e fugir pras montanhas?

Vão continuar gostando de mim?
Continuariam me apoiando, não importa que caminho eu tomasse?

Estava pensando justamente nisso enquanto descia a rua pra comprar pão, quando um dos fiéis habitantes de Ermelino Matarazzo me parou: o senhor de bengalas, que eu nunca lembro o nome, pois me acostumei a chamá-lo mentalmente de "Senhor de Bengalas", apesar dele ser relativamente jovem.

- E aí, menina, quanto tempo! Tudo bem?

Fazia mesmo muito tempo? Não o havia visto semana passada?

- Olá, tá tudo bem, sim.

- Trabalhando?

-Eu...

-Já se formou?

- Na verdade ainda falta um seme...

- Vai casar ou se formar primeiro?- interrompeu ele, antes que eu pudesse terminar a palavra "semestre".

Eu fiquei dois segundos com a boca aberta, sem pronunciar som algum, e depois sorri e respondi de maneira simpática e divertida. No segundo seguinte, quando eu pude finalmente voltar a ficar sozinha com meus pensamentos, pude balbuciar as frases cheias de palavrões e impropérios que eu havia guardado na cabeça. Afinal, qual é o problema com as pessoas?? Será que elas acham mesmo que a vida é só isso: uma lista de coisas a serem cumpridas o mais rápido possível??

Na volta da padaria, encontrei de novo o mesmo sujeito. E de novo ele me parou, dessa vez não pra perguntar, mas pra falar sobre a velhinha da minha rua, que morreu há 2 meses. Eu não me lembrava dela. Só do marido dela (também morto) e principalmente do cachorro deles, pois eu latia pra ele quando era pequena. Você leu certo: eu latia pro cachorro deles, e não o contrário.
O caso é que não conhecia a velhinha. Só queria levar o pão até minha casa e almoçar a feijoada que minha mão fez. Só isso.
Falei isso mesmo, da forma mais educada que eu pude, e a resposta foi:
- Mas foi o excesso mesmo que a matou. Ela comia uma feijoadinha de vez em quando. E bebia vinho, mesmo não podendo. Eu levei o marido dela ao medico, uma semana antes dele falecer. Ele morreu por medo. Tinha um problema no pâncreas, e teve medo de operar.

Então percebi que, apesar de ser uma pessoa que adora "se importar" com a vida do bairro todo, aquele homem não deixava de estar se importando - de maneira positiva, sem aspas. Não era exatamente maldade, cobrança ou julgamento.

Quando pude finalmente subir pra minha casa, com o pão, estava menos inclinada a me revoltar com as cobranças da humanidade. Afinal, com cobranças ou não, há pessoas que se preocupam com a gente. Tirando a "moldagem" que elas fazem inconscientemente, o fato de fazê-la mostra exatamente que se importam.
O que fazer? Simples: Agradeço o carinho e dispenso os moldes. Desejo que todos tenham uma preocupação sábia o bastante pra enxergar mais longe. E sigam seu próprio vento.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

O domingo chegou. Ele chega todo ano, aquele domingo específico. Assim como outras tantas datas que me fazem lembrar. E eu tento levar isso da melhor forma. Eu tento até fazer piada, pois ser humorado quando o assunto é triste é bem do nosso feitio. Faz doer menos? Às vezes. Nem sempre.

Lembro de termos cavalgado juntos, no último dia. Estávamos no lugar que nós dois mais amávamos no mundo. O sol estava se pondo, tudo estava de uma cor dourada. Você cavalgava na minha frente, e eu corria com meu cavalo pra te alcançar, e aquele vento delicioso mexia seus cabelos curtos e escuros.

Os mesmos cabelos curtos e escuros que eu lembro de ter olhado a água mexer, muitos anos antes da cavalgada. Eu não sabia nadar, mas amava a água, então você me colocava nas suas costas e nadava comigo montada ali. A mamãe gritava, mas eu não sabia por quê. Afinal, eu me sentia totalmente segura ali, enquanto você mergulhava e eu via a água fazer seus cabelos se mexerem. Era uma época que eu era pequena o suficiente pra não me lembrar quantos anos tinha. E pequena o suficiente pra caber nas suas costas...

"Céus
Conheci os céus
Pelos olhos seus
Véu de contemplação"

Mas agora eu estava grande. Agora eu era uma menina boba de 13 anos, que como toda garota, criticava o pai e fazia caretas sarcásticas por coisas sem importância. E eu menti pra você. Eu menti quando disse que, de manhã, tinha conseguido abrir a porteira sem descer do cavalo. Acho que você desconfiou, porque me perguntou várias vezes se eu tinha mesmo conseguido. Eu menti porque queria que você se orgulhasse de mim. Como uma menina de 13 anos poderia fazer o pai se sentir orgulhoso, se não fosse abrindo a porteira sem descer do cavalo?
Todas essas pequenas coisas não tinham importância, porque naquele dia nós tínhamos cantado a música do lobisomem como não fazíamos há um bom tempo. E agora cavalgávamos. E eu desejei poder ter outros momentos como aquele com você. Lógico que eu teria! Afinal, eu era uma adolescente e meu pai era forte e jovem. Ele me veria entrar na faculdade, me acompanharia no meu casamento. Ele cantaria a música do lobisomem para os meus filhos, e eles iam cair na gargalhada, sentados no colo dele, como eu fiz um dia.

Aquela não era hora de pensar nisso. Era hora de correr, de pressionar mais a barriga do cavalo, porque eu queria te alcançar.

O dia seguinte veio, e você foi embora. Pra um lugar onde não era possível te alcançar.


Antes de você perder a consciência, eu lembro de ter te visto sentir dor. Muitos anos mais tarde, em conversas desimportantes sobre curiosidades, eu escutei mais de uma vez que a dor do ataque cardíaco é uma das mais fortes do mundo, perdendo apenas para a dor do parto e a das pedras nos rins. Provavelmente a dor que eu senti quando escutava aquilo era forte o suficiente para também entrar nesse ranking. Mas, naquele dia, eu não sabia que sentiria essa dor.

Tudo foi tão rápido... A porta estava entreaberta, e eu fui a única que viu. Os choques. E pude sentir que, no segundo seguinte, você não estava mais lá. Dizem que quando vemos coisas que doem muito, o cérebro tenta apagar essas imagens e sensações da nossa memória. Agradeço ao cérebro pelo serviço prestado. Acho que doeria ainda mais se eu me lembrasse das cores, dos cheiros, ou da ordem cronológica das coisas. Não. Só me lembro de pedaços. E do médico me levando pra uma sala para contar o que eu tinha acabado de ver com meus próprios olhos. Eu não chorei. Só fiz uma pergunta: Não dá pra voltar atrás? O médico fez uma cara que misturava a pena com a confusão. Que tipo de pergunta era aquela? Ok, era normal as pessoas perguntarem se não havia mais nada a ser feito para salvar a pessoa que morrera. Mas a pergunta não fora essa. A pergunta estava bem formulada: "Não dá pra voltar atrás?"
Na hora nem eu sabia, mas aquela pergunta sem sentido, que saíra da minha boca, não fora dirigida ao médico. Eu estava perguntando pra alguém, nem sei quem. Meu pai estava morto, e todo meu conceito de realidade estava bagunçado. Se a realidade podia ser bagunçada daquele jeito, ela bem que poderia ser bagunçada a ponto de eu poder, por passe de mágica, voltar no tempo. Não é?
Se eu não tivesse me despedido dos animais e atrasado as coisas... Há duas hora atrás, estávamos todos nos arrumando, porque tínhamos que sair do sítio e voltar pra casa. O sol estava forte, e fazia um calor mormacento. Eu tinha ouvido falar (minha mãe dissera?) que meu pai estava com dor no braço. Normal, ele tinha feito tanto esforço ajudando a construir a cerca, ontem... Falavam sobre passar no hospital da cidadezinha, antes de seguir viagem. Eu não sabia se era mesmo necessário. Era só uma dor muscular, oras!
Eu tinha que me despedir do sítio, pois ficaria um tempão sem voltar pra lá, e era meu lugar preferido. E fiz isso. Eu estava lá, me despedindo dos cavalos, dos porcos, das árvores e dos filhotes de passarinho, porque eu ficaria o ano inteiro sem vê-los. E você estava sentado perto da soleira, e eu não sabia que já sentia dor. Dentre mais ou menos uma hora, você iria embora para sempre. Não era por um ano. Para sempre. E eu nem ouvia o que você dizia. E eu me despedindo de porcos. De porcos!!

Então, era isso. Eu só tinha que voltar no tempo, apenas uma hora atrás, e agilizar tudo. Mandar os porcos pro inferno, apressar todo mundo, pra que arrumassem tudo e chegássemos no hospital rápido, e descobríssemos que a “dorzinha muscular” era na verdade um começo de ataque cardíaco. Daí ele tomaria remédio, e seguiríamos viagem. Ele não teria o ataque bem na frente da porta do hospital. Ele não morreria. Daria tempo.
Era isso, eu tinha que voltar uma hora atrás. Ou voltar um dia antes, pra que eu acelerasse o cavalo e pudesse alcançá-lo. Ou então voltar pra uma dimensão em que eu pudesse arrancar meu coração e fazê-lo bater no peito de outra pessoa. Qualquer coisa.

"Sim. Quis sair de mim.
Esquecer quem sou
E respirar por ti.
E assim, transpor as leis mesquinhas dos mortais"

Mas o médico me disse que não, que não dava pra voltar atrás. E assim eu descobri que a realidade só é bagunçada pra nos fazer sentir dor, e nunca pra nos ajudar a solucionar as coisas.


Os dias seguintes se passariam assim, fora do ar. E o calor mormacento caiu do céu em forma de tempestade turbulenta. Tudo é uma lembrança nebulosa de caos. Quando as coisas começaram a voltar a fazer sentido, eu me vi na posse de 3 coisas: lembrança, tristeza e uma capinha de celular. Tinham aberto o guarda-roupa e sumido com tudo, mas eu fiquei com a capinha de celular. Era feita de couro e estava impregnada com seu cheiro. Uma capinha masculina, de couro grosseiro, velha, já rasgando. Fiquei um tempo com ela. Eu me lembro que mais de uma pessoa me criticou por usá-la. "Que capinha feia para o celular de uma mocinha!", elas diziam.
Eu só concordava, sem falar nada. Como eu ia tentar explicar aquilo pras pessoas? Será que elas não entendiam que aquela capa de celular valia mais que ouro? Que havia nela uma essência que estava perdida do mundo para sempre, e que ninguém jamais poderia recuperar em lugar algum?

O tempo passou. E seu cheiro um dia saiu da capinha de celular, como de todo o resto do mundo. Eu tentei, eu inspirei o ar com força, mas havia sumido. E, mesmo que não tivesse saído, eu já sabia que não podia ficar me prendendo a coisas como capinhas de celulares. E ela virou, finalmente, o que ela sempre fora: uma capinha de couro velha e rasgada. Nesse dia, eu senti o medo de que não havia mais nada físico que me ligasse a você.

Mais tempo se passou. Um dia, me peguei olhando pro espelho. Não do jeito que eu me olho no espelho, todos os dias. Não do jeito que uma mulher (já adulta?) se olha quando se auto-critica ou se auto-admira. Não. Me peguei olhando no espelho de um jeito diferente.
Durante todos esses anos, eu havia escutado muitas frases do tipo:"Nossa, como ela se parece com ele, né?"; "A filha caçula é a cara dele!"; "Ela é cara e fuça"; "Ela gosta de aventuras, e de cantar. Parece o pai, né?"; e blábláblá. Ouvia isso sempre. Eu sorria, concordava com orgulho, e fim.
Mas um dia, eu me olhei no espelho.
E pude ver. Algo nos olhos. No jeito que abaixamos a cabeça quando falamos sobre sentimentos, como se tivéssemos vergonha de sentir as coisas. No jeito como frisamos os lábios, levantamos as sobrancelhas e balançamos a cabeça quando queremos dizer "É, a situação tá feia". No jeito de chorar. E no jeito de rir.
Estava lá.
Em mim.
E o que senti foi ao mesmo tempo óbvio, estranho e maravilhoso. Porque eu acabara de perceber que sim, ainda havia uma coisa física que continha uma parte sua. E que, magicamente, a única forma de eu ficar perto dessa coisa, era ficar perto de mim mesma. Porque era eu.Uma parte de você sempre estaria comigo, nem que eu não quisesse, sempre estaria. O que eram capinhas de celular perto de ter, literalmente, 50% de você comigo?

E aí entra o maravilhoso. Eu acredito, eu sei que há um depois. Eu sei que as vezes você pode ver e sentir o que eu falo. Os cristãos pensam que há outra coisa diferente. Os espíritas, outra. Os budistas, os muçulmanos, crêem em coisas totalmente diferentes. Há quem pense que quando morremos viramos luz e esquecemos tudo que fomos. Há quem não pense nada, que simplesmente morremos, deixamos de existir. Quem está certo?

Não importa quem está certo, ou se há uma teoria certa. O que importa é algo muito óbvio, que filosofia ou crença nenhuma pode contestar: nesse exato instante, uma parte sua vive.
É fato, é claro, é provado cientificamente. Uma parte sua vive.


"Vou, entre a redenção
E o esplendor
De por você viver."
E essa parte de você estava comigo quando passei na faculdade. Vai estar comigo quando eu conseguir o emprego que sonho. Estará comigo se um dia eu me casar. Ela vai cantar a música do lobisomem pros meus filhos.

E espero fazer de tudo para que essa parte sua, tanto a física quanto a outra, tenha orgulho de mim. Já conquistei algumas coisas, algo me diz que você se orgulharia. Ainda não consigo abrir a porteira sem descer do cavalo... Mas tenho certeza que, quando eu conseguir, vou cair na risada por no mínimo meia hora.
E não passa um dia nesse nosso planeta que eu não pense em você. Nem um dia. E eu te amo tanto, e é um amor tão lindo, que quase não cabe em mim. Porque nada pode mudar isso. A falta, a tristeza e a dor que senti, e a alegria e saudades que sinto agora, tudo só serve pra trazer isso: o mais puro e sincero tipo de sentimento que o ser humano pode ter.

"Quando o frio vem nos aquecer o coração

Quando a noite faz nascer a luz da escuridão
E a dor revela a mais esplêndida emoção: O Amor."


segunda-feira, 11 de julho de 2011

O caderno

O que diabos eu estava procurando naquela caixa empoeirada? Não lembro. Esqueci de tudo quando achei um caderno roxo com desenhos dos Tiny Toons.
Com cadeado. Lógico. Era uma época que diários tinham cadeados e era seguro deixá-los em cima da escrivaninha. Não tão seguro assim, na verdade. Consegui abrir em um segundo com um grampo de cabelo.

A primeira página estava escrito "Diário de Fernanda Braite" em letras prateadas e ornamentadas de um jeito medieval. Não combinava nada com a capa, mas tudo bem. Na segunda página, descobri que aquele era um diário de uma menina de 12 anos.

O que se espera de um diário desses? Páginas sobre cores, roupas, filmes, amigos, paqueras, coisinhas de 12 anos... Não. Não só isso, pelo menos. O que eu fui percebendo era uma garota alegre, mas de um jeito bem peculiar. Citava as meninas da escola com análises psicológicas profundas, sem entender direito o comportamento de nenhuma das colegas. Ficava muito brava quando a mãe e a irmã brigavam enquanto ela estava tentando ler. E super empolgada com as invenções do pai, como o "boné do apagão" ( época do "apagão", meses em que São Paulo estava com um sério problema nas usinas hidrelétricas e a cidade ficava grande parte do dia no escuro. O pai da menina chegou em casa com um boné que tinha uma lanterninha na aba, à pilhas, estilo aqueles capacetes de mineradores).

Gostava tanto de animais e plantas que um dia as meninas fizeram coro em volta dela pra chamá-la de bruxa. Elas gritavam, e tudo parecia vagamente com o que hoje em dia se chama de bullying. Mas a menina dona do diário, apesar da vontade de chorar, olhou aquelas garotas gritando e pensou: "Bruxa... é. Talvez". E começou a pesquisar livros sobre o assunto. Acabou descobrindo que as colegas estavam certas.

De repente, o diário parava... Fiquei curiosa. Eu sabia o que acontecia, mas fiquei curiosa.
Uma folha em branco, e depois um pulo de datas de 1 ano e meio. Mais pulos de datas. E o diário de todo dia virou um caderno onde a menina escrevia como estava a vida dela, com intervalos de 2 ou 3 anos. Era isso. Um caderno que a garota encontrava, de vez em quando, por acaso, nas caixas empoeiradas da sua casa. E depois se esquecia dele, para depois voltar a encontrá-lo. O que tinha la? Alegria. Morte. Amores. Dor. Mais alegria. E análises.

A vida dela virou 360 graus, 720 graus, 1080 graus, como ela costuma dizer.

"As vezes bate uma vontade de querer ser outra pessoa. Não, não estou deprimida. Eu me amo. Só que, como todo mundo sabe, amar é difícil pois a gente espera coisas da outra pessoa que as vezes ela não faz. Levando em consideração que essa pessoa sou eu, tento não me decepcionar."

Uma das frases da menina, já com 13 anos.
Não posso falar por ela. Mas posso falar por uma de 23, que vai fazer o possível pra não decepcioná-la.