sexta-feira, 7 de abril de 2017

Pra que serve a palavra?

Preciso escrever. Preciso escrever, porque tive um sonho, e nele me pediam que escrevesse.
Era uma festa da época colonial, da época da corte, mesmo. Todos com roupas antigas e vestidos armados, perucas. Literalmente alguma festa do século 16 ou 17? Não sei dizer. Eram aqueles vestidos lindos e exagerados que vemos em novelas ou filmes de época. 
Eu também estava vestida assim. Andei até a marquesa, duquesa? Não sei o que era ela. Só sei que era um título muito importante, uma mulher de alta classe da corte. Ela deveria ter uns 57 anos, o pescoço revelava uma idade já avançada, mas isso não tirava a beleza do seu colo. Mulher sensual, rosto bonito, olhos muito azuis. Lembro de pensar "Nossa, quero envelhecer como essa mulher".
Ela levantou e foi caminhando comigo para fora do salão, longe dos olhares. A camareira dela se juntou a nós: uma moça de não mais que 20 anos, vestido simples, cabelos castanhos escuros arrumados em cachos, olhos quase pretos. Lembro de prestar muita atenção ao nariz dela: era fino, longo e de ponta levantada. Achei um nariz bonito e diferente, parecia nariz de fada.
Quando estávamos longe da vista dos outros, elas deram as mãos. E me contaram sobre o amor delas.
Elas eram tão apaixonadas uma pela outra que eu conseguia sentir a energia do amor e da paixão. Ainda sinto agora, acordada, enquanto escrevo. Me contaram como era difícil: o preconceito por serem mulheres, o preconceito por se amarem, o preconceito até pela diferença de idade. Ninguém sabia, obviamente. Se encontravam quando a camareira ia arrumar o quarto. A marquesa era casada? O marido era violento com as duas? Não lembro detalhes, mas acho que algo parecido com isso foi dito. Lembro mais da sensação, elas dizendo o quanto doía, o quanto sofriam. E que eu precisava contar isso.
Elas me fizeram escrever um papel, e nele eu escrevia "Se a palavra serve para alguma coisa, é para contar sobre as minorias, é para fazer diferença." De novo, não lembro detalhes, mas a frase era mais ou menos isso. E depois eu escrevia que contaria a história de (e escrevia o nome inteiro de uma) e de (e escrevia o nome inteiro da outra). Elas insistiram para que eu escrevesse todos os sobrenomes, e lembro que eram muitos. Me sinto culpada por não lembrar. Um deles era algo como Priscila Resende Bari, mas tinham muitos outros sobrenomes entre esses três.

Acordei com essa certeza: se a palavra serve para alguma coisa, é pra contar sobre as dores da minoria. Minoria essa que nem é minoria! Existem mais mulheres que homens, nesse mundo. O sofrimento que existia nos séculos passados ainda é o sofrimento que existe no meu século. Abri o Facebook: uma atriz de 82 anos conta que, na juventude, foi estuprada por um diretor de TV com quem trabalhava, e em outra situação por quatro marginais. Uma figurinista de uns 25 anos conta que atualmente foi vítima de assédio pelo ator com quem trabalha, José Mayer. Uma travesti foi morta e teve o vídeo vazado na internet. Um homossexual foi demitido do Banco Itaú por postar uma foto de mãos dadas com seu noivo. Dor. Muita dor. No passado e no presente.

Quantas mulheres não foram estupradas física ou psicologicamente para se encaixarem em padrões que não eram os delas? Quantas e quantos homossexuais não perderam a vida, não perderam seu amor ou a possibilidade de viver esse amor? Quantos não perdem ainda hoje?
Os padrões da época da corte continuam entre nós, dançando entre nossa sociedade com seus espartilhos e perucas, com toda a dor e superficialidade que eles representam. Com toda a imposição de comportamento, sexualidade e beleza que mata tudo o que tem de valor na personalidade de alguém.

As coisas estão caminhando pra melhor? Sim, acredito que sim. Enquanto a atriz de 82 anos ficou quieta na época, pois era ela que iria sofrer se contasse, a figurinista de 25 contou. Talvez a marquesa do meu sonho e sua camareira poderiam assumir seu amor na nossa sociedade atual. Mas ainda é muito cedo pra dizer que estamos livres. É preciso dizer. A palavra serve pra mostrar, pra lutar, pra resistir. 

Eu tive esse sonho. E quantas mil pessoas ele não representa?
Aqui está a minha palavra, e ela serve pra isso. Faça a sua servir, também.


terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Espiritualmente mimados

Existe uma frase específica que sempre me causa uma leve vontade de bater a cabeça da pessoa na parede: "Deus fez as vacas para a gente comer". (*não, esse texto não é sobre vegetarianismo, mas poderia ser). 
Nunca respondo a isso. Mas, lendo um livro hoje, me veio vontade de escrever sobre o assunto, e quando isso acontece é melhor eu obedecer. Então lá vai: "Não, querido(a), as vacas não são feitas para você comer. Elas são feitas para serem vacas. Só isso."

O ser humano (e eu estou inclusa!) tem uma característica muito engraçada que eu batizei de "infantilidade espiritual". Somos como aquelas crianças que acham que se pedirem "por favor", os pais terão que fazer, porque são "MEUS pais". Já conversou com uma criança sobre Deus? Às vezes, elas acham que, se quisermos e pedirmos de verdade, a chuva pode começar a cair pra cima. Não é culpa delas, elas ainda não sabem direito a diferença entre fé e teimosia. Mas nós deveríamos saber. 

Assim como elas, que ficam chorando pela escolinha porque o coleguinha pegou a "MINHA boneca, MINHA lancheira, MEU lápis de cor", temos a infantilidade de achar que tudo no mundo é NOSSO. Minha vaca. Minha árvore. Meu mar. O Papai-do-céu que me deu, é tudo meu! E, novamente como as crianças, vamos chorando e batendo a cabeça até aprendermos que não é assim. 

"Deus fez a vaca para eu comer, as flores para eu cheirar, as árvores para me dar sombra". Quanta pretensão! Meu amigo, Deus não fez nada "para" você! Ele fez a vaca, as flores, as àrvores E você. Não é "para", é "e". 
Pois é, você faz parte da criação toda. Não é o maior legal?  

A diferença entre você e uma vaca é que ela tem a inocência, e você, a inteligência: ela deveria usar a inocência dela para pastar e ruminar; você deveria usar sua inteligência pra pensar. E com isso, não quero dizer que todo mundo que come carne é burro! Nada disso. Quero dizer que devemos nos enxergar como criação, respeitar aquele ser, aquela flor, aquela árvore que está no mesmo barco que a gente. Muitos dos nossos problemas atuais seriam solucionados se você parasse de se enxergar como a última bolacha do pacote de Deus. 

O mundo não é uma caixa de brinquedos. E se for, você é o Woddy, meu amigo. Você não é o Andy. Mas, antes de qualquer coisa, pare de agir como o Sid. 

terça-feira, 25 de agosto de 2015

A pata do papagaio

O contador Afonso Silva não tinha inimigos e gozava de boa saúde. Mas, naquela manhã, teve certeza de que iria morrer.

E não era aquela certeza que todos nós temos, de que “um dia” morreremos, uma data colocada em um futuro longínquo e nunca imaginado pela maioria das pessoas. Afonso sabia que iria morrer do jeito horrível e desesperado que um rato na ratoeira sabe que vai morrer, que um peixe pescado sabe que vai morrer, que Antonieta a caminho da guilhotina sabe que vai morrer. Do jeito em que se acorda na terça, mas não se acorda na quarta. Descobriu isso assim que entrou na cozinha para tomar o café.

Desistiu do café e foi até o telefone. Ligou para o trabalho e falou que estava de cama e não iria. Que idiota passaria o último dia da vida trabalhando como contador? Quando o filho chegou da faculdade, encontrou-o guardando uma pasta na gaveta.

- Faltou no trabalho, pai? Tá tudo bem?
-Não. Vou morrer. Veja como está o papagaio.

André foi até a cozinha e olhou para a gaiola. Viu o papagaio de sempre: cinzento e alegre, que torcia o pescoço e falava um “oi, André” ensinado há muito tempo. Ele estava empoleirado em uma pata só. A outra estava encolhida como se machucada.

-Ah, não… - o rapaz gemeu – Essa baboseira de novo?

A família sempre havia contado a lenda. O papagaio, que já existia antes do próprio Afonso nascer, era o animal de estimação da casa. Certa vez, ficou empoleirado com apenas uma pata, e só a mãe de Afonso reparou no fato. Naquele dia, o pai dela teve um ataque cardíaco. Depois de uns anos, na segunda vez que o papagaio ficou assim, o veterinário foi chamado e não viu nada de errado com a ave. Foi só quando a avó de Afonso teve um AVC e caiu morta que o pássaro voltou a colocar as duas patas no poleiro, como se nada tivesse acontecido.

Desde então, o papagaio havia voltado a suspender o pé mais 3 vezes: quando o pai de Afonso caiu da construção em que trabalhava; quando a mãe de Afonso, dona do pássaro, padeceu com um câncer de pulmão; e finalmente quando a esposa de Afonso, que foi morar na casa da família após o casamento, teve uma complicação com o diabetes. Agora, moravam apenas Afonso e o filho André. Certa vez o rapaz perguntou ao pai porque ele não se livrava do bicho, e Afonso disse que a finada mãe, avó de André, havia feito ele prometer que não desfaria da ave por causa de uma superstição boba.

- Vou morrer, filho. Aceite isso.
-O senhor só tem 51 anos. Não é hora de morrer, pare de falar bobagens. E se isso fosse verdade, como o senhor sabe que é você quem morre?
-É sempre o mais velho da casa que morre, André. Pelo menos foi assim nas 5 vezes. - Afonso pegou as chaves de casa - Eu te amo, filho. Mas não se sinta ofendido, não vou passar meu último dia de vida com você.

Saiu de casa, e voltou apenas quando estava escurecendo. Com um porshe vermelho.

-Mas que porra é essa? - André foi correndo até a garagem pra ver o carro.

 Afonso saiu do veículo todo sorridente. Fedia a perfume barato de mulher.

- Estava aproveitando meu último dia, filho. Fiz muitas dívidas, mas você não vai precisar pagar nada, quando eu morrer. Viu que lindo meu carango?
- Pai, você está completamente maluco…
-Antes morrer como um completo maluco que morrer como um completo babaca.

Afonso entrou na casa e saiu logo em seguida, com a pasta que estava mexendo de manhã.

- Aqui está toda a papelada para meu velório. E comprei um jazigo.- André tentou falar, mas ele interrompeu - Está tudo certinho, filho. Agora vou passar minhas últimas horas curtindo meu porshe. Te amo.

Ele deu um beijo na testa de um André estupefato e saiu em disparada com o carro. Por volta das 20h, Afonso escutou o celular tocar. 

-Fala, filho.
-Onde o senhor está?
- Na autoestrada com o porshe. Vou desligar, menino.
-Pai, o papagaio morreu.

Afonso achou que tinha ouvido errado.

- Eu estava no banho e quando fui pra cozinha, ele estava morto no chão da gaiola. - continuou André.
-Tem certeza?
-Ah, tenho. Ele está bem morto mesmo.

André só ficou ouvindo o barulho da estrada, e o silêncio do pai. De repente, Afonso começou a ter uma crise de riso.

- Eu tinha esquecido… - o pai riu mais e continuou - … tinha esquecido que papagaios vivem uns 80 anos, e ele devia ter uns 60. Ele era mais velho que eu. E é sempre o mais velho da casa que morre.
- O senhor pode voltar, agora, pra gente conversar sobre como faremos para pagar… Pai?

A linha havia ficado muda. André tentou ligar mais umas 5 vezes, sem sucesso. Depois de algumas horas, a polícia entrou em contato. Seu pai havia batido o porshe em um caminhão. Mais uma vítima de trânsito por culpa da desatenção causada pelo celular.  

quarta-feira, 10 de junho de 2015

SOBRE FEMINISMO (e afins)



Vamos deixar algo finalmente claro para todos?

FEMINISTA - pessoa que acredita que as mulheres devem ter os mesmos direitos CIVIS e SOCIAIS que os homens. 

MASCULINISTA - pessoa que acredita que os homens devem ter os mesmos direitos CIVIS e SOCIAIS que as mulheres. 

FEMISTA - mulher que acha que as mulheres são SUPERIORES aos homens.

MACHISTA - homem que acha que os homens são SUPERIORES às mulheres.


Isso posto, vamos ao texto de verdade, que você só precisa ler se ficou com a pulga atrás da orelha sobre algum dos termos que eu acabei de explicar acima.  

O masculinismo NAO É O OPOSTO de feminismo, muito pelo contrário: você só consegue ser uma feminista de verdade se for uma masculinista. Mas o machismo é sim o oposto do femismo, e eu vou explicar por quê! (calma, não se mate com uma caneta bic, ainda... Continue comigo!)


- SOBRE O MACHISMO E O FEMISMO
Eles são um o oposto do outro, mas posso colocar esses dois no mesmo balaio, porque no fim são a mesma coisa: pessoas que se sentem inseguras e querem atacar o outro, atacar o que é diferente, para tentar se sentir melhor com elas mesmas. É o homem que acha que lugar de mulher é na cozinha. É o homem que trai a mulher, porque "mulher virgem é pra casar, prostituta é pra comer". É aquele que fica bravo se a filha gosta de namorar, mas leva o filho pro puteiro com 13 anos. É o homem que fala que "Não sou machista. Mas ela pediu para ser estuprada, né, saindo com essa roupa!". ... Peraí, gente. Falar de machismo sempre ataca meu fígado... Vou lá vomitar um pouquinho e já volto pra escrever o resto, só um instante...

(BLÉÉÉÉEÉÉÉÉRGH.....)

Voltei... ufa. Tô melhor. Femismo! O femismo também me causa náuseas, mas vamos lá, o texto precisa ser escrito. Femista é a mulher que acha que homem não presta pra nada. Que homem "É tudo um bando de burro que não consegue manter o p@u dentro das calças" ( - pausa para um refluxo -). Que pensa que "Todos os homens são traidores, grosseiros e porcos". Que acha que deveríamos matar todos, e só deixar um pouco de sémen congelado para a gente conseguir ter filhas (os bebês meninos a gente mata na hora, obviamente. Cortar o mal pela raiz).
Gente, parece absurdo, mas tem mulher que pensa assim. E o que mais me dói é que são mulheres que se dizem feministas! Pô, seja uma pessoa nojenta à vontade, mas não suja o nome do movimento!
Eu fiquei assombrada quando vi um vídeo do Felipe Neto dizendo que ele estava apoiando as causas feministas, mas foi trucidado pelas próprias feministas que falaram "Você é homem, cala a tua boca!". Oi???? Você quer ser contra a repressão de um sexo sobre outro, mas apoia a repressão de um sexo sobre outro? E o que dizer sobre a "líder do movimento feminista" que disse que mulheres deveriam se recusar a "fazer sexo de quatro", pois é uma posição vexatória que ofende toda a luta feminista?? Uai, caceto de agulha, e se a mulher gostar da posição? Você quer apoiar a liberdade sexual da mulher reprimindo a liberdade sexual da mulher?

Para esses casos, só digo uma coisa: Minha filha, quando você começar a fazer sentido, daí você vem falar comigo. Até lá, saiba que você é femista, não feminista.



- SOBRE O MASCULINISMO

Apesar de muitos lugares usarem esse termo para falar de um grupo de homens que está se rebelando porque acham que mulher tem uma vida boa demais, que acham que o homem é um coitado porque ele que tem que dar o primeiro passo na conquista, que acham que o mundo é supercruel com eles porque eles que trocam os pneus dos carros... Parem tudo! Masculinismo não é isso! Isso se chama "homem querendo se vitimizar" e não é um movimento social. 

O masculinismo é uma filosofia que acredita que o homem deve ter os mesmo direitos civis e sociais que as mulheres. Isso significa que os masculinistas acham que o homem deveria escolher se quer ou não entrar no exército (e a mulher também). Que apoiam que o pai tenha uma licença paternidade maior. Que o homem tem direito de chorar sem ter sua masculinidade posta em cheque. Que o homem pode cuidar de sua aparência e de sua autoestima sem ser considerado metrossexual. Que ele pode ser um jovem que não tá a fim de "pegar" várias garotas, sem ser visto com maus olhos pelo próprio pai ou outros homens da família. E por aí vai... Deu pra pegar o significado da coisa?

Uma pessoa masculinista acaba sendo automaticamente feminista, pois enxerga as pessoas como pessoas. Agora uma pergunta: você é homofóbico? Se sua resposta é prontamente um "NÃO", então você necessariamente é masculinista.

Porque uma frase como essa aqui: "Ihhhh, cara, você tá lendo poesia?? É uma bichona, mesmo! Ihhhh... tá passando gel no cabelo? Esse é viadinho!" pode parecer a coisa mais inocente do mundo (e provavelmente você fala isso como brincadeira na sua roda de amigos...). Mas frases desse tipo são preconceituosas com os homens no geral (pois tiram o direito do homem de fazer o que ele quiser sem ser considerado "menos homem") e preconceituosas com os gays (justamente porque taxam "viadinhos"e "bichonas" como algo ruim). Então te pergunto de novo: você é homofóbico? Não estou falando que você seja. Mas te desafio a analisar de onde vêm esses conceitos dessas frases "de brincadeira", e se esses são conceitos que você quer mesmo ter. 

Um masculinista apoia o filho se ele quiser fazer balé. Pois sabe que o filho será um homem com H maiúsculo independentemente do balé: porque para ser um Homem, basta que ele seja feliz, educado e íntegro. Ele pode fazer balé e ser o bailarino mais namorador do universo, ter várias namoradas e um monte de mulheres loucas por ele, e também jogar futebol. Ou ele pode ser um bailarino que só namorou uma única mulher na vida dele, e casou com ela. Ou ele pode ser um bailarino gay, ter vários namorados, ou até casar com um homem. Mas ele será Homem com H maiúsculo do mesmo jeito, porque é seu filho! 




-SOBRE O FEMINISMO (finalmente)

 Voltando à definição do começo: feministas são pessoas que acreditam que as mulheres devem ter os mesmos direitos CIVIS e SOCIAIS que os homens.

O que significa isso?
Um exemplo de direito civil:  uma feminista acha que mulheres devem ganhar OS MESMOS SALÁRIOS que os homens ganham para as mesmas funções (sim, galera, ainda ganhamos muito menos fazendo exatamente a mesma coisa... "Ah, Fernanda, mas é que essa diferença de salário é para o Estado poder pagar a licença maternidade da mulher e blábláblá". O escambal! E se a mulher decidir que não quer ter filhos? É justo ela ganhar menos a vida toda para pagar a licença maternidade de outra mulher? E peraí, ser mãe ou não é um direito da mulher, não é "reembolsável" e muito menos deveria ser pago pela mulher, caso esse absurdo de justificativa de que "elas ganham menos para receber os benefícios sem quebrar o Estado" seja verdade. Se for assim, vão me falar que homens deveriam ganhar menos, pois comem mais e gastam mais com o Vale Refeição. Me poupem.

Um exemplo de direito social: feministas acham que as mulheres devem ter sua sexualidade respeitada tanto quanto os homens. Se um homem fica com muitas mulheres, é o "garanhão" (masculinistas odeiam isso), mas se uma mulher fica com vários homens, é a"puta". Uma pessoa deve poder ter quantos parceiros ela quiser, sem ser taxada de nada, sendo homem ou mulher. É uma escolha dela, é uma opção dela, e ela não é alguém melhor ou pior por causa disso.

Outro exemplo de direito social: feministas não gostam dessa vulgarização do corpo feminino que a gente vê todos os dias, o dia inteiro. As pessoas criticam as meninas que saem na rua quase nuas e se comportam como "periguetes", mas o que a indústria que você cultiva ensinou para essas meninas? Que o valor dela é o corpo dela. Que ela vai ser admirada de acordo com o tamanho da bunda. Desde a propaganda de cerveja que o pai dela assiste até a novela que a mãe gosta, as mulheres valorizadas são as que se comportam como símbolo sexual. O que se espera que uma menina faça, então, assim que começa a ter seios? Que saia na rua carregando um exemplar da "Divina Comédia" e mostrando para as pessoas o quanto ela é inteligente e culta? Pois é, não. Ela vai querer ser admirada pelo que ela aprendeu que as pessoas admiram: o corpo. E então elas ficam vulgares e saem por aí com roupas minúsculas, são violentadas, e vem um jumento dizer que a culpa é delas. Vem uma Igreja (sim, catolicismo, tô falando de você) excomungar a filha que foi estuprada, mas perdoar o pai que estuprou. Me falem se essas coisas não dão vontade de devolver o almoço, de tão nojentas que são?

"Ah, Fernanda, mas as meninas que saem por aí quase peladas não são santinhas, não! Elas só faltam agarrar os meninos à força e ficam grávidas aos 12 anos...". Quem disse que para ter direitos tem que ser santa? O machismo já começa por aí... Vamos supor que essa menina "periguete" realmente não sofreu influência da mídia, que ela sai na rua quase nua porque gosta mesmo, que ela agarra os meninos porque gosta mesmo, que ela é assim e pronto. E DAÍ? Ela deve ser livre pra usar a roupa que quiser sem sofrer violência por isso. Livre para ficar com quem ela quiser (desde que isso não desrespeite os meninos... agarrar meninos à força não é uma coisa muito legal, os masculinistas devem concordar, mas vocês entenderam). Livre para seguir o que ela acha que é certo. Assim como qualquer homem também o é.


O que feministas NÃO são:

Feministas são mulheres que odeiam a vaidade?

Pelo amor de todos os anjos e demônios: NÃO! As mulheres são livres (inclusive!) para decidirem o que fazer com os pelos do próprio corpo, sabiam? Ufa! Ainda bem. Achei que agora eu teria que deixar os pelos das axilas crescerem até eu poder fazer uma trança viking.

Gente do céu, de onde tiraram que "feminista não raspa o braço, não depila a virilha, não usa salto, porque isso é uma imposição do sistema patriarcal maldito do inferno"???? Concordo que essas coisas (saltos, depilação e tal...) foram impostas para a mulher de forma bem psicológica (no mesmo estilo em que a vulgarização do corpo é imposta na mídia hoje em dia...), mas cabe à mulher querer isso pra ela ou não.

Eu sou um caso bem claro disso: sou feminista, mas adoro a tecnologia da depilação a laser, adoro usar salto, amo maquiagem, amo vestidinhos floridos. Eu até tenho um espartilho para usar com alguns vestidos, de vez em quando (e sim, eu aperto o espartilho como se não houvesse amanhã)! Para quem? Para mim! Por quê? Porque acho lindo! E não, não quero queimar meus sutiãs de renda. Mas tiro o chapéu para as feministas do passado que queimaram os delas, porque foi isso que me fez poder fazer uma ótima faculdade e trabalhar, hoje em dia. Nesse século atual, o objetivo não é mais queimar sutiãs (chega de dióxido de carbono no ar, gente), e sim queimar preconceitos.


Feministas são mulheres que saem mostrando os seios em passeatas e fazendo todos os machistas assobiarem para a "causa social" delas?

NÃO! Meninas do Femen, VOCÊS NÃO ME REPRESENTAM! E não é por causa dos seios à mostra, não! Na Europa as mulheres tomam sol sem blusa e nunca achei vulgar, apoio pois faz muito bem pra pele. Mas o Femen me dá vergonha por recusarem gordinhas ou velhas nos seus protestos, porque elas têm peitos caídos que não vão chamar atenção dos homens na passeata de vocês. PQP, eu fico fula da vida com isso! Como alguém pode fazer passeata contra o uso do corpo da mulher como objeto sexual USANDO o corpo da mulher como objeto sexual? Novamente: quando você começar a fazer sentido, daí a gente conversa. Até lá, você não é feminista, querida! É só uma moça fazendo topless e gritando por algum motivo.



Perguntas ou comentários que eu me recuso a responder depois desse texto, a não ser que você queira ouvir as respostas abaixo:


- Imagina, você não é feminista! Você é superdelicada e meiga.

   R: Se você conseguisse ler minha mente, não me acharia meiga com o que eu acabei de pensar sobre você.


- Você é feminista? Então, você é lésbica?

R: Depende. Entre ficar com alguém que tem uma mente tão brilhante quanto a sua, e ficar com uma mulher, eu com certeza viro lésbica.


- A mulher não pode querer ser igual ao homem. O legal nos relacionamentos é a diferença, e homens e mulheres são diferentes.

R: Ai, Jesus Cristinho... Quem te disse que eu quero ser igual a um homem, criatura acéfala? Mulheres são diferentes dos homens, mesmo, e ainda bem! Em questões físicas, em questões psicológicas, em questões biológicas, na pele, no cheiro (ui... ainda bem mesmo!).

A questão aqui é que "ser diferente" não é sinônimo de "ser melhor ou pior". E se vier dizer que homens são mais racionais e mulheres são mais emocionais, te digo que talvez haja mesmo uma tendência biológica para isso, assim como os homens das cavernas precisavam ter uma tendência biológica para caçar mamutes. Hoje em dia isso não tem mais nada a ver, meu amigo. Posso listar várias mulheres que são mais racionais que vários homens, e vários homens mais emotivos que mulheres, e por aí vai. A pergunta a ser feita é: será que a sociedade não incentiva os meninos a serem mais racionais, e as meninas a serem mais meigas? Pensa aí e a gente conversa depois.


-Mas na Bíblia tá escrito que...

R: PAAAAAAAARA TUDO! PAROOOOOOU! Nem vem me falar de Eva, costelinha de homem feita com manteiga e shimeji, maçã mordida, serpente falante nem nada disso.

Se for falar de religião, leia os textos em hebraico sobre Lilith (a primeira mulher de Adão... pois é...) que era uma mulher super bem resolvida e que ia dar risada se falassem pra ela que "o homem é a cabeça da mulher". Religião à parte: eu adoro Jesus e você que fala da Bíblia como se soubesse de tudo desse livro, deveria saber que Jesus era feminista. E masculinista. E humanista. Pois é.

E a Bíblia também diz que crianças desobedientes deveriam morrer apedrejadas. Olha só! Acho que você não está muito a fim de seguir o negócio ao pé da letra, né? Então pronto.



- Mulher fala que é feminista, mas quando é para o homem pagar a conta, vocês não reclamam! ou qualquer variação desse coliforme fecal de frase:  "Cavalheirismo é o nome que as mulheres dão à parte do machismo que lhes é conveniente" 

(Ai, que preguiça desse comentário... Vai, Fernanda, força... responda para o indivíduo.)


R: Senhor indivíduo, existem coisas que as pessoas fazem umas para as outras, e isso independe de ser homem ou mulher, que demonstram afeição. Por que seria contra a filosofia feminista aceitar um presente de alguém? Se alguma mulher está falando que homem tem mesmo é que pagar tudo, daí só posso te dizer que ela é uma oportunista. Mas "querer que o outro pague tudo" e "aceitar gentilezas" são coisas diferentes, né?

Quando um cavalheiro está saindo com uma dama, ele geralmente paga a conta para demonstrar que se importa com ela, que quer que ela aceite o encontro como um presente, fique o mais confortável possível. Isso é fofo, é charmoso e muito gentil. Um homem desses não é machista. E uma mulher que aceita essa gentileza também não está sendo submissa, está apenas aceitando com alegria a gentileza do outro. Se alguém te dá um presente, você acha melhor recusar e gritar "Sou capaz de comprar meus próprios presentes, obrigada! E você é uma pessoa preconceituosa, viu, por me dar presentes"??? Alguém aciona o manicômio aqui?

É claro que, como uma mulher razoável, ela deve sugerir dividir a conta, pagar alguma coisa ou até arcar com o passeio todo uma vez ou outra (isso faz parte da filosofia de equilíbrio e igualdade que as feministas pregam), mas proibir os homens de quererem agradar a gente é ridículo. É mais que isso, é falta de educação.

Da mesma forma, quando uma mulher faz a janta para um ficante/namorado/marido, não quer dizer que ela está dizendo "Olha, sou submissa. Se eu fosse feminista de verdade, jamais cozinharia para você". Consegue perceber? Quem disse que feministas não podem gostar de cozinhar para o marido, e vice-versa? Da mesma forma, quem disse que uma feminista não pode se sentir feliz quando o parceiro demonstra que se importa com ela através de uma gentileza, como pagar um jantar ou abrir a porta do carro? Onde está o preconceito nesses gestos?



- Feminista é tudo mal-comida.

R: Que bonitinho! Você tem QI suficiente para mexer a boca e emitir sons. Seus pais devem ficar muito felizes por você ter sobrevivido. Eu não. Mas tudo bem.





Resumo da obra: Sou feminista e sou masculinista, com muito orgulho, com muito amor. Não sou homofóbica, não sou machista e não sou femista. Agora vamos parar de classificações, s'il vous plaît.




sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

COMO TER UMA SAÚDE PERFEITA!




Aqui vai tudo que você precisa fazer para ter uma saúde perfeita, beleza e vida longa. É muito simples:

-Primeiramente, tome NO MÍNIMO 2 litros de água por dia.

- Coma de 3 em 3 horas.

-Só que você não pode tomar água com as refeições, porque isso dilui o suco gástrico e ferra tudo.

- Logo, você tem que beber mais de 2 litros, em intervalos equidistantes das refeições, que serão feitas de 3 em 3 horas.

- Para a saúde bucal, escove os dentes após as refeições.

-Isso significa que você também vai ter que escovar os dentes de 3 em 3 horas.


- Ingira todos os 13 tipos de vitaminas, minerais e nutrientes na quantidade certa.

- Lembrando que existem vitaminas que, se você ingerir menos que o ideal, vão fazer falta. E tem outras que, se você tomar a mais do que deve, também vão fazer mal (é o caso das lipossolúveis, que ficam acumuladas no corpo...)

-Então, sua alimentação tem que ter a conta exata de vitaminas hidrossolúveis e lipossolúveis.

- E fibras! O ideal é consumir de 20g a 40g de fibras por dia.

- O problema é que mesmo um alimento que você ache que está lotado de fibras (tipo uma fatia de pão integral), só tem cerca de 1g.

- Ou seja, você vai precisar comer umas 20 fatias de pão integral por dia pra ter a cota MÍNIMA de fibras.

- Ou então vários outros alimentos. Mas mesmo 1 fatia de pão integral, uma maçã, uma barrinha de cereal, arroz e carne ainda te darão no máximo uns 6g. Então, a quantidade de comida vai ter que ser estratosférica.

- Só que as 20 fatias de pão integral, ou toda a quantidade estratosférica para atingir as fibras, com certeza terão outros componentes que vão fazer mal se ingeridos em excesso (tipo as vitaminas lipossolúveis).

- Incluindo o carboidrato, que vai fazer você virar uma bola de tão gordo.

- Então, atividade física e academia é muito importante. Umas 2 horas por dia é o ideal (somando aeróbicos e musculação).

- E, depois do banho (que não pode ser quente), hidrate toda a pele com creme.

-Os pés precisam de um creme diferente e mais encorpado.

-O rosto precisa ser lavado com um sabonete especial, depois tonificado e em seguida hidratado com outro creme, específico para o rosto. Para as mulheres, tem a parte de tirar a maquiagem muito bem tirada, antes de lavar, senão os poros entopem.

- Tratar dos cabelos é importante para manter a beleza.

- Hidratar e cuidar das cutículas diariamente faz bem para a saúde das mãos e evita inflamações.

- Fazer tudo isso quando você chega em casa vai demorar umas boas 3 horas... E então você vai dormir mais tarde!

-Só que você precisa dormir 8 horas por noite para ter todo o corpo recuperado e manter a saúde.

 - De manhã, o ritual será repetido. E não saia sem protetor solar!

- Daí você vai ter que pedir demissão do trabalho, para ter tempo de fazer tudo isso, dormir, e pesquisar a quantidade de vitaminas lipossolúveis e hidrosolúveis das suas refeições feitas de 3 em 3 horas.

-Se não pedir demissão, eles vão acabar te demitindo do mesmo jeito, porque ninguém quer um funcionário que fica o tempo todo no bebedouro tomando água, na cozinha comendo, no banheiro jogando pra fora a água que tomou ou no banheiro escovando os dentes.


- O problema é que daí você não vai ter dinheiro para pagar academia, comprar creme, comprar a montanha de comida com fibra, comprar água e toda a quantidade de creme dental que vai usar por dia.


- IMPORTANTE: Não passe nervoso. O estresse libera radicais livres que fazem mal à saúde. Por isso, aconselho a não ler esse texto. Algo me diz que ele vai te fazer ficar lotado de radicais livres.

- Mas acho que eu deveria ter avisado isso no começo, né?




(Nota: a autora resolveu jogar o teclado para cima, levantar as mãos aos céus e gritar bem alto. Depois disso, se autoproclamou uma pessoa de saúde péssima. E ficou super bem. Sem radicais livres, pelo menos).


segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

DOMINGO

Suas palavras novamente me emocionaram. Eu já as tinha lido. Ou melhor, escutado. Mas me emocionaram mesmo assim. Uma pequena palavra de três letras era nova, no fim. E outras eram antigas, bem antigas, mas tão especiais! Ocitocinas, panaceias.

Tenho muito orgulho da capacidade que tenho de chorar sem fazer barulho nem mexer um único músculo do rosto. Lógico que, quando posso, eu deixo que o choro venha acompanhado de mil caretas. Não podia. Não podia fazer caretas, e não podia chorar pois não deu vontade.  Apenas duas lágrimas pequenininhas, que ninguém viu. Eu mesma não veria. Pequenas e tiradas uma de cada olho, quase que forçosamente. Cada uma caiu em um dos meus pulsos, como mágica. Já não consigo chorar mais. Meus olhos secaram como o Sistema Cantareira.

Você faz parecer que a escolha foi minha. Que naquele domingo em que você pensou que era o fim, minha mensagem estava dando o fim. Mas em outro domingo, mais de um ano antes desse, eu lembro não de uma mensagem, mas de uma ligação. Mensagens, ligações, que mania é essa nossa de mandar coisas sérias por meios eletrônicos que bem sabemos nunca deram certo?

Naquele domingo, em uma ligação, ouvi sua voz. Não parecia sua. E ela disse algo que fez eu comprovar que a expressão “quebrar o coração” é realmente mentirosa. Não senti o coração quebrar. Nem senti coração. O que aconteceu foi uma sensação muito parecida com a que a Amélie Poulain teve em uma das cenas do filme: me transformei em água, inteirinha, e escorri pelo chão me esparramando. Não literalmente, óbvio. Figurativamente, esparramei pelo chão de uma garagem que nem era a minha. E o chão era inclinado.  Se fosse literalmente, teria eu escorrido até a rua e entrado em um bueiro qualquer?



Não chorei. Virei água por dentro. Escorri por um bueiro sujo imaginário. Respondi qualquer coisa como “Tudo bem”. Desliguei o telefone. Dormi. E no dia seguinte (ahhh, no dia seguinte” sim), uma água verdadeira e literal saiu como tsunami pelo que eu chamava de olhos. Não houve bueiro honesto o suficiente em seu digno ofício de bueiro que salvasse a cidade de virar uma segunda Atlantis. Pelo menos para mim.

Desde esse domingo, sua opinião mudou algumas vezes, e eu inundei o mundo tantas outras. Mas, ao contrário do que seu relato faz parecer, de forma triste e que me emocionou, não fui eu que pus um fim. Minha mensagem de domingo não terminou nada. Pelo jeito, sua ligação também não. Prova disso foi outro domingo: o passado, aliás. Vulgo ontem.

Agora, não me sinto triste. Nem feliz. Sinto-me plenamente capaz de entender o que você disse sobre amor. Até de sentir.  Coisas que nunca pensei. Para sempre? Não. Por um momento ou outro. Permitir-me, libertar-me, sentir tudo que isso pode fazer sentir. Nos poros, na pele. Na vontade. Experimentar. Gostar. Querer. Ousar. Calar.

Mas no fim... no fim meu coração sai do peito e ressoa um batimento de eco. Delicioso.  De onde vem? De alguém que eu talvez não conheça. Ou conheça. Não é sonho de menina, não é conto de fadas nem historinha de amor idealizada.

É só essa intuição estranha. Eu amei uma primeira vez. Eu amei uma segunda vez, mais ainda, como bem sabe. Posso amar uma terceira vez. Três é o número da perfeição, afinal. Somado ao oito (o que eu, em minha emoção, vivo atualmente), dá onze. A força. Minha força. E a dele. Seja ele quem for.

E por essa terceira pessoa meus olhos voltarão a se encher, e por ela eu posso até voltar a chorar. Mas por ela meus olhos também voltarão a ser mais brilhantes que a estrela LBV 1806-20. Através dos lábios dela, eu ouvirei que sou única. E eu serei única.  E é por ela que vou apagar a luz do abajur ao lado da cama. “Vamos dormir, querido”. “Mas amanhã é domingo!”. “... Verdade! Vamos fazer a feira juntos?”


quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Areia nos olhos

Quantas vezes enchemos o peito para dizer “Eu não sou isso”. E, no final do dia, é exatamente isso que somos.

Li “O Homem da Areia”, de E.T.A. Hoffmann, quando tinha 17 anos. Foi um conto que me fascinou imensamente, e nunca mais o esqueci. Cinco anos depois, me reencontrei com ele em Paris, num belo dia em que entrei em um espetáculo de ópera. Não associara o nome da peça, em francês, ao conto que eu lera em minha fase donzela.

E ali, sentada nas cadeiras do mezanino alto, com aqueles pequenos binóculos que as pessoas usam para ver as óperas (os mesmos binóculos maléficos que Nathanael usa para ver Coppelius da torre?), o cheiro, as cortinas vermelhas de veludo pesado, a música, tudo me envolvia numa fumaça de nostalgia inebriante. E lá, o homem da areia apareceu. Olímpia, o autômato, e a obsessão de seu enamorado Nathanael. Fui tendo aquele momento de compreensão que chega de fininho, onde você se pergunta várias vezes a mesma coisa, “Mas isso não é... aquela história... sim, é ela!” até que me encontrei debruçada no mezanino, totalmente tomada.

Mais anos se passaram. E eis que me deparo novamente com o homem da areia.

Não vi nenhuma peça, nenhuma associação, nada. Encontrei-me com ele dentro da minha própria cabeça. Ele apareceu assim, como quem aparece em uma peça de ópera que você entra sem saber o nome.

Quantas vezes o homem com o saco não jogou areia nos meus olhos? Quantas vezes não confundi  meros autômatos com pessoas reais? Estaríamos todos à mercê de sua areia?

Sim, estamos. E cabe apenas a nós lavarmos o rosto.
Olímpia que me desculpe, mas eu sou de carne.